O Sudão do Sul: após a paz, uma nova batalha contra a mortalidade materna

Em 2005, após 21 anos de conflito, a guerra civil entre o norte e o sul do Sudão chegou ao fim. Embora a luta tenha cessado quase totalmente, o Sudão do Sul enfrenta outra luta – contra a mortalidade materna e neonatal. De acordo com a Pesquisa Domiciliar sobre Saúde no Sudão, realizada em 2006, a taxa de mortalidade materna para Equatória Ocidental – uma província no Sudão do Sul – chegou a 2.327 mortes por 100 mil nascidos vivos, uma das mais altas em todo o mundo. A taxa de mortalidade neonatal de 2006 foi de 51 mortes por mil nascidos vivos, significativamente acima da taxa nacional do país, de 41 por mil nascidos vivos.

A cobertura geral estimada de atendimento de saúde, gerenciada, em grande parte, por um pequeno número de organizações não-governamentais, é de apenas 25%. Mesmo quando o atendimento de saúde está disponível, os serviços de saúde materna são limitados e nem sempre são utilizados. Parte dos motivos pode ser a falta de instrução. O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) estima que, em 2006, a taxa de alfabetização para mulheres do Sudão do Sul era de apenas 12%, em comparação a 37% para os homens. Portanto, as mulheres têm acesso limitado a informações sobre saúde.

Outro motivo possível são as longas distâncias que as gestantes precisam percorrer a pé para chegar aos centros de atendimento pré-natal. Conseqüentemente, as taxas de freqüência variam acentuadamente de acordo com a localização – de 17,4%, no estado de Unidade, para cerca de 80%, em Equatória Ocidental, em 2006. No Sudão do Sul, menos de 15% dos partos são assistidos por agentes de saúde especializados, e 80% deles ocorrem em casa, sob a supervisão de parentes, atendentes tradicionais ou parteiras locais (atendente de parto do sexo feminino que recebeu tipicamente cerca de nove meses de capacitação). Entretanto, grande parte das causas de morte materna – incluindo obstrução prolongada de trabalho de parto, hemorragias, sépsis e eclâmpsia – poderia ser gerenciada por agentes de saúde mais qualificados.

A qualidade dos serviços de atendimento pré-natal e de parto disponíveis é baixa devido à falta de provedores de serviços qualificados tecnicamente. Nos dez estados do Sudão do Sul, parteiras, atendentes tradicionais e outros provedores de atendimento materno e neonatal não possuem a capacitação necessária para realizar procedimentos simples de enfermagem e de preservação da vida. A falta de equipamentos e suprimentos, sistemas precários de encaminhamento e infra-estrutura física e de transporte inadequada também impedem o provimento de serviços de saúde. O atendimento pós-natal é praticamente inexistente, embora a maior parte das mortes maternas e de recém-nascidos no Sudão do Sul ocorra durante o período pós-natal.

Com esse pano de fundo, o governo do Sudão do Sul e seus parceiros vêm empreendendo esforços para fortalecer os serviços de saúde materna. A Política Interina de Saúde para 2006-2011 destaca uma abordagem integrada que reconhece a necessidade de melhorar os serviços de saúde e, simultaneamente, proteger os direitos da mulher. O Ministério da Saúde comprometeu-se a criar mais centros para cuidados primários, saúde reprodutiva e materna e, ao mesmo tempo, apoiar a utilização de meios de comunicação de massa e serviços de orientação, para divulgar informações sobre nutrição, práticas tradicionais prejudiciais e saúde sexual. Para atender às necessidades imediatas de cuidados de saúde, parteiras comunitárias que possuem qualificações básicas vêm sendo "rastreadas", com o apoio do UNFPA. Em junho de 2006, foi criado o primeiro centro de tratamento de fístulas do Sudão do Sul, no Hospital Juba Teaching.

Para acelerar a implementação dessa estratégia, o governo já criou uma Diretoria de Saúde Reprodutiva, e está recrutando coordenadores estaduais para facilitar, acompanhar e coordenar atividades relacionadas à saúde materna e neonatal em cada estado. O UNICEF apóia a expansão de serviços de atendimento pré-natal e de emergências obstétricas em diversos estados e a divulgação de mensagens básicas sobre saúde nas rádios e por meio da ampliação do atendimento comunitário em áreas distantes.

Há desafios pela frente. O retorno de refugiados e os movimentos de muitas populações deslocadas internamente, a alta taxa de fertilidade (6,7) no Sudão do Sul e o aumento das taxas de infecção por HIV entre algumas populações necessitam de um programa sistemático de saúde. A luta pode ser longa, mas aqueles que assumiram o compromisso de vencê-la já estão trabalhando.


Referências

Escritório Central de Estatísticas e Comissão do Sudão do Sul para Recenseamento, Estatísticas e Avaliação, Sudan Household Health Survey 2006. Cartum: CBS e SSCCSE, p. 43, 161, 164, 178; Escritório Nacional do Fundo de População das Nações Unidas no Sudão. Annual Report 2006.UNFPA Sudan, p. 3–4; e informações fornecidas pelo UNICEF Sudão.