A recente e súbita elevação dos preços globais, que teve início em 2006 e continuou em 2007-2008, ilustrou a vulnerabilidade de milhões de indivíduos à fome e à subnutrição, principalmente aqueles que vivem em países onde a segurança de alimentos ainda causa grande preocupação. O acentuado aumento envolveu alimentos básicos, como vegetais, óleos, grãos, produtos derivados do leite e arroz. Embora as flutuações nos preços de bens de consumo sejam comuns, o que distinguiu a situação de 2008 foi o fato de a marcha dos preços mundiais afetar não só alguns produtos selecionados, mas quase todos os alimentos e bens alimentícios importantes.
Até junho de 2008, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) havia identificado 22 países em desenvolvimento em situação particularmente vulnerável em relação à crise de alimentos. Essa avaliação baseou-se em uma combinação de três fatores de risco:
Comores, Eritréia, Haiti, Libéria e Níger estão entre os países que apresentaram níveis preocupantes nesses três fatores de risco identificados. Não surpreende que a maioria desses países se encontre entre os menos desenvolvidos e de mais baixa renda. Entretanto, mesmo nesses países, é a parcela mais pobre da sociedade – que gasta a maior proporção da renda disponível com alimentação – que tende a ser mais duramente atingida pela crise de alimentos.
Em situações de emergência, como a crise de alimentos, mulheres grávidas e lactantes, assim como seus bebês, fazem parte da população considerada sob maior risco de subnutrição, devido às suas necessidades nutricionais mais altas. Por exemplo, gestantes precisam diariamente de 285 calorias adicionais, e lactantes, de 500 calorias adicionais. Sua necessidade de micronutrientes também é alta e exige ingestão adequada de ferro, ácido fólico, vitamina A e iodo para garantir sua saúde e a saúde do bebê.
Diante da crise de alimentos, a FAO vem reclamando insistentemente uma reação rápida de liberação de suprimentos, para restabelecer melhor equilíbrio entre a demanda e a oferta de alimentos, principalmente nos países mais afetados. Além disso, embora a ajuda em alimentos venha sendo oferecida aos países, é preciso que sejam aplicadas políticas para equilibrar os padrões de distribuição de alimentos entre os membros das famílias, que geralmente têm gestantes e lactantes consumindo quantidades de alimentos inferiores às suas necessidades mínimas. Nos lugares em que a ajuda em alimentos está sendo fornecida àqueles sob maior risco de escassez e de subnutrição, as gestantes devem receber nutrição adicional. Esse provimento geralmente é feito na forma de distribuição de cotas de alimentos, seja por meio de programas gerais de distribuição de alimentos ou por meio de programas de suplementação alimentar. Gestantes e lactantes também podem necessitar de outras intervenções complementares relacionadas à nutrição, incluindo enriquecimento de alimentos, suplementação com micronutrientes, maior quantidade de água limpa de boa qualidade, gestão da malária durante a gravidez, profilaxia para gestão de parasitas internos, e orientação sobre educação nutricional.
Campanhas de comunicação e advocacia em relação à ajuda em alimentos devem destacar as necessidades nutricionais especiais de gestantes e lactantes, e incluir mensagens às famílias e comunidades, explicando por que essas mulheres estão recebendo alimentação adicional. As informações devem enfatizar a importância do aleitamento materno exclusivo durante os primeiros seis meses de vida de uma criança, com alimentação complementar para bebês mais velhos. Para mães HIV positivo, tendo em vista que o vírus pode ser transmitido pelo leite materno, as práticas de aleitamento materno podem variar, dependendo da disponibilidade e da segurança da alimentação substituta.
Informações e advertências continuam a exercer um papel crucial para garantir ações adequadas e nos momentos certos, visando evitar o sofrimento. O Sistema Global de Informações e Advertência no Momento Oportuno (Global Information and Early Warning System), da FAO, vem demonstrando sua capacidade para alertar o mundo em relação à emergente escassez de alimentos. Entretanto, mais ações devem ser empreendidas para criar mecanismos consistentes de resposta à crise de alimentos, e para desenvolver políticas nacionais e internacionais que dêem prioridade e defendam a segurança de alimentos e nutrição – e que levem em consideração as necessidades nutricionais especiais de mulheres e crianças pequenas.
Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. Soaring Food Prices: Facts, perspectives, impacts and actions required. Roma: FAO, junho de 2008, p. 2–4, 17; Young, Helen, et al. Public Nutrition in Complex Emergencies. The Lancet, v. 364, n. 9448, 20 de novembro de 2004, p. 1899; Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, Fundo das Nações Unidas para a Infância, Programa Mundial de Alimentação e Organização Mundial da Saúde. Food and Nutrition Needs in Emergencies. UNHCR/UNICEF/ WFP/WHO, p. 21; Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. The Global Information and Early Warning System on Food and Agriculture. Disponível em <http://www.fao.org/giews/english/giews_en.pdf >, acessado em 1º. de agosto de 2008.