Capítulo 5
Unindo forças pela sobrevivência da criança

 

Resumo  
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UNICEF/HQ06-0963/Shehzad Noorani

Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio não são uma série de metas utópicas. São o produto de pensamentos consistentes e de cálculos complexos desenvolvidos por alguns dos principais políticos, especialistas em desenvolvimento, economistas e cientistas do mundo, e representam neste momento a melhor esperança em todo o mundo para acelerar os progressos humanos.

O cumprimento dos objetivos permitirá que centenas de milhões de crianças, homens e mulheres deixem de passar fome, tenham acesso a água limpa e a saneamento básico, adquiram educação, e desfrutem das mesmas vantagens econômicas e oportunidades políticas que estão disponíveis para outros indivíduos. Embora diversos países e regiões estejam atrasados, as metas podem ser alcançadas no tempo que ainda resta, desde que estejam disponíveis vontade política, os recursos indispensáveis e as estratégias necessárias.

Vontade política pode ser imposta? Estratégias, estruturas, ações e recursos podem ser direcionados para um canal único, que leve ao cumprimento integral dos ODM, e dentro do prazo? A resposta simples é ‘sim’ – mas desde que governos, doadores, sociedade civil e outros interessados se unam em favor da sobrevivência da criança e assumam o compromisso de garantir que os ODM relacionados à saúde sejam alcançados.

O desafio é livrar-se do cinismo e da letargia e deixar para trás promessas quebradas no passado. Afinal, nenhum empreendimento é mais essencial ou mais compensador do que salvar a vida de uma criança.

Mesmo que os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio sejam alcançados, o mundo não será um lugar perfeito. Ainda existirá pobreza. Crianças e suas mães ainda morrerão desnecessariamente. E o meio ambiente continuará a demandar nossa atenção. Não obstante, segundo as estimativas do Projeto Milênio – o órgão de consultoria independente que, no Encontro Mundial de Cúpula de 2005, introduziu as recomendações para o cumprimento dos ODM –, a realização dos objetivos significará que terão sido poupadas as vidas de cerca de 30 milhões de crianças e de dois milhões de mães. Mais de 300 milhões de pessoas já não passarão fome. Centenas de milhões de pessoas terão conquistado acesso a água limpa para beber e a instalações de saneamento básico. Outros milhões de crianças estarão na escola, outros milhões de mulheres terão oportunidades econômicas e políticas.1

Os ODM não são um sonho de um grupo de visionários. São o resultado de pensamentos consistentes e de cálculos complexos desenvolvidos por alguns dos principais políticos, especialistas em desenvolvimento, economistas e cientistas do mundo, e representam neste momento a melhor esperança da humanidade para orientar o mundo em uma direção mais sustentável. São metas alcançáveis, bem dentro do campo das possibilidades – desde que estejam disponíveis vontade política, os recursos indispensáveis e as estratégias necessárias. O primeiro passo essencial é tomar a decisão de alcançar os objetivos. As ações com relação aos outros passos necessários para atingir os ODM relacionados à saúde – analisados a seguir – podem ser realizadas, em grande parte, dentro da estrutura de abordagens a cuidados de saúde da mãe, do recém-nascido e da criança já existentes.

Essa vontade política pode ser imposta? Estratégias, estruturas, ações e recursos individuais e coletivos podem ser direcionados para um canal único, que leve ao cumprimento integral dos ODM, e dentro do prazo? O relatório Situação Mundial da Infância 2008 identificou seis ações centrais, no nível macro, que demandam com urgência o envolvimento de forças unificadas para intensificar os esforços em favor da sobrevivência de mães, recém-nascidos e crianças, e para assegurar o direito de mulheres e crianças à saúde e ao bem-estar. São elas:

Criar um ambiente que dê apoio à sobrevivência e à saúde da criança

Embora o relatório Situação Mundial da Infância 2008 tenha focalizado principalmente intervenções e abordagens essenciais, comprovadamente eficazes para salvar a vida das crianças, é necessário que sejam realizadas mudanças sistêmicas e de muito maior alcance. A prestação de serviços de saúde de qualidade para mulheres e crianças requer um ambiente no qual elas possam sobreviver e desenvolver-se. A condição mais óbvia é a ausência de conflito. Paz e segurança são essenciais para que programas de saúde funcionem adequadamente, sejam eles baseados em centros de saúde, programas de expansão ou parcerias comunitárias. Quando a resolução do conflito está fora de alcance, é de suma importância alcançar e proteger as crianças e suas famílias, vítimas de emergências complexas. Muito embora o conceito de crianças como ‘zonas de paz’ não tenha sido incorporado à legislação internacional, foram declarados, nas últimas décadas, os ‘dias de tranqüilidade’ – quando as lutas são interrompidas e brigadas de agentes de cuidados de saúde podem administrar vacinas. ‘Dias de tranqüilidade’ foram respeitados em países como Afeganistão, Angola, El Salvador, Líbano, República Democrática do Congo, Somália, Sri Lanka e Sudão.2

Igualmente importante é o sentimento interior de segurança de uma criança, que pode ser abalado por conflitos armados, por altos níveis de violência e crime dentro das comunidades, ou por viver em uma família truculenta. Bebês e crianças pequenas são extremamente sensíveis ao mundo que os cerca. A apreensão com relação à próxima crise – seja ela a explosão de uma mina de solo ou a violência sexual praticada por um parente ou por um amigo da família – pode ser quase tão traumática e desestabilizante quanto o próprio ato. O reconhecimento do direito da criança a um ambiente que garanta sua proteção é essencial para prevenir a violência contra ela, e deve ser acompanhado por leis adequadas e que efetivamente sejam cumpridas.

© UNICEF/HQ05-1173/Roger LeMoyne
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Ambientes saudáveis e seguros são condições vitais para a sobrevivência e o bem-estar das mães e de suas crianças.
Uma mulher recebe um diploma pela conclusão de um curso que ensina como criar filhos, Turquia.

Eqüidade é outro aspecto crítico para um ambiente que dê apoio à criança. Em inúmeros países, ser pobre significa, automaticamente, ser negligenciado e marginalizado pelos sistemas de saúde. Outros indivíduos são excluídos de serviços e práticas essenciais em função de gênero, deficiência, raça ou etnia. É fundamental garantir que os sistemas de saúde de programas de sobrevivência da mãe e da criança sejam baseados em direitos e busquem corrigir essas desigualdades. Além disso, para que efetivamente seja possível alcançar os excluídos, os programas de saúde devem ser integrados a estratégias que enfrentem as causas e os efeitos da marginalização e da exclusão social.

Melhorias sustentadas nas condições de saúde de mulheres e crianças também demandarão maior igualdade de gênero e aumento do poder da mulher. Quaisquer que sejam os serviços oferecidos, muitas crianças deixarão de recebê-los se as mulheres não tiverem maior poder de decisão dentro da família. Inúmeros estudos confirmaram os efeitos poderosos e positivos que a educação e oportunidades econômicas exercem sobre o bem-estar das mulheres, que se traduz em melhores cuidados e perspectivas de sobrevivência mais promissoras para suas crianças.

Desenvolver e fortalecer cuidados continuados ao longo do tempo e em todas as localidades

As crianças são mais vulneráveis no momento do nascimento e durante seus primeiros dias de vida. Assim sendo, cuidados de saúde são cruciais durante a gravidez, no momento do parto e no período neonatal. Esses cuidados continuados devem estender-se através dos períodos de lactância e da primeira infância, por meio da integração de serviços essenciais que devem ser prestados para a mãe e para a criança em momentos específicos do ciclo de vida. A abordagem de ciclo de vida reconhece que essa continuidade exigirá educação, aumento de poder, conhecimento e serviços de saúde reprodutiva para meninas adolescentes, uma vez que muitas delas também serão mães – em 2005, cerca de 13% dos bebês nasceram de mães que tinham entre 15 e 19 anos de idade3 – e até a vida adulta. Para que tenham eficácia, cuidados continuados devem forjar vínculos fortes entre a família, a comunidade e atendimento de qualidade e serviços clínicos oferecidos em instituições de atendimento básico de saúde. Estas, por sua vez, devem ter forte conexão com um hospital distrital. O estabelecimento desses vínculos freqüentemente resulta em utilização mais intensa dos serviços. Significa também que será menor o número de mulheres e crianças que correm o risco de ser negligenciadas pelos sistemas de saúde.

É na família e na comunidade que os indivíduos aprendem e exercitam práticas de cuidados infantis e comportamentos de busca por cuidados. Freqüentemente, o primeiro contato com essas questões ocorre em visitas ao centro de saúde durante a gravidez, que para muitas mulheres podem ser o primeiro contato com o sistema formal de saúde. Cuidados pré-natais são importantes porque ajudam a mulher a identificar riscos potenciais e a planejar uma gestação segura. Quando não há uma clínica de saúde nas imediações, serviços de extensão devem ser prestados por equipes de centros de saúde mais afastados e distritais. Tipicamente, esses serviços oferecem um conjunto de cuidados de saúde para os períodos pré-natal e pós-natal, e para a criança.

O hospital distrital é o recurso mais importante no sistema de saúde para comunidades e famílias, e deve contar com equipes adequadas e equipadas para enfrentar qualquer complicação no momento do parto. No nível dos cuidados de emergência, o hospital e a equipe devem estar preparados para dar assistência a partos simples e para oferecer cuidados obstétricos emergenciais e cuidados neonatais imediatos, inclusive ressuscitação. A qualidade dos cuidados nos três níveis e uma forte ligação entre eles são fatores fundamentais para garantir cuidados continuados ao longo do tempo e em todas as localidades.4

Expandir pacotes de serviços essenciais por meio do fortalecimento de sistemas de saúde e de parcerias comunitárias

Em muitos dos países mais pobres, os sistemas de saúde são frágeis e fragmentados, cercados por problemas que variam de grave escassez de pessoal qualificado a falta de financiamento, equipamentos e suprimentos, e incapacidade de gerar e utilizar informações. No médio e no longo prazo, o fortalecimento dos sistemas de saúde nacionais é a maneira mais segura de alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio relacionados à saúde. Parcerias comunitárias em cuidados básicos de saúde podem contribuir para ampliar o atendimento em áreas de difícil acesso, e para fortalecer os sistemas de saúde. Como este relatório demonstra, existe um conjunto crescente de evidências de que intervenções integradas podem ser implementadas de maneira eficaz no nível da comunidade ao longo do ciclo de vida. Além disso, aumentar o poder dos indivíduos para que assumam parte da responsabilidade por sua própria saúde – e pela saúde da sua família – pode gerar um impacto profundo e duradouro sobre o desenvolvimento.

Por meio da divulgação de mensagens de saúde objetivas, a baixo custo, os meios de comunicação podem contribuir decisivamente para colocar à disposição da comunidade as informações necessárias para que realizem mudanças em sua vida. Além disso, organizações da sociedade civil especializadas em abordagens participativas podem ser incitadas a promover aspectos específicos de sobrevivência e saúde da criança, desde que sejam adequadamente orientadas e cuidadosamente acompanhadas.

A mobilização da comunidade não deve ficar a cargo exclusivamente de Ministérios da Saúde já sobrecarregados. Sem dúvida, governos locais e ministérios responsáveis pelo desenvolvimento da mulher podem desempenhar um papel fundamental ao lado de organizações de mulheres e líderes da sociedade civil local, desde que estes sejam envolvidos no processo desde seu início.

Embora os programas atuais pela sobrevivência da criança enfatizem soluções de baixo custo, tecnologias de ponta podem trazer benefícios inesperados para alcançar os mais inatingíveis. Por exemplo, foram desenvolvidas ferramentas de diagnóstico simples para identificar a malária, fazer testes de HIV e analisar a qualidade da água. Com capacitação básica, esses testes podem ser administrados até mesmo nas clínicas de saúde mais rudimentares. A biotecnologia está produzindo vacinas mais seguras, em novas combinações, e pesquisas em andamento esperam criar vacinas que não precisem de refrigeração, e que, em vez de serem injetáveis, possam ser aplicadas por meio de adesivos fixados à pele, sprays nasais ou outras técnicas. Esses avanços potenciais podem repercutir profundamente na expansão dos serviços de imunização.5

Embora sua aplicação nesta área ainda esteja em estágio inicial, a tecnologia da informação também tem um papel na sobrevivência e na saúde da criança nos países em desenvolvimento. A utilização crescente da telefonia móvel, de e-mail e da internet significa que saúde por via eletrônica (e-saúde) e telemedicina já podem estar o alcance das populações em áreas remotas, e podem ter aplicações muito mais amplas. Além disso, agentes de saúde podem conectar-se mais facilmente com instituições de atendimento básico de saúde e, caso necessário, com departamentos e centros de referência em hospitais.6

© UNICEF/HQ06-2402/Susan Markisz
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Uma abordagem integrada ao desenvolvimento de sistemas de saúde é crucial para a realização de progressos na sobrevivência e na saúde da criança.
Esta família participa do programa Trio por la Vida (Trio pela vida), que promove registro de nascimento, aleitamento materno e imunização, Venezuela.

Ampliar a base de evidências

Muitas vezes, a compreensão do problema é metade da solução. Embora as linhas gerais da situação da infância em todas as partes do mundo estejam claramente definidas, aspectos específicos por vezes continuam um tanto vagos. Em muitos países, a carência de estatísticas confiáveis dificulta o estabelecimento de prioridades pelos formuladores de políticas, assim como a avaliação da eficácia de programas ou o acompanhamento dos progressos. Mesmo sistemas de registros vitais – que registram eventos críticos da vida, como nascimento e morte – algumas vezes cobrem apenas determinadas partes de um país. Em alguns países, não há nenhum tipo de registro. O registro de nascimento, particularmente, é fundamental para a proteção dos direitos da criança e para a geração de informações precisas sobre a população de um país (ver Destaque, Capítulo 1).

Informações precisas e análise da situação da saúde, da nutrição, da água, do saneamento e da higiene, e do HIV/aids em meio às crianças de todas as partes do mundo são elementos cruciais para a formulação de estratégias visando à ampliação das parcerias comunitárias, a cuidados continuados e a sistemas de saúde para resultados. Nos países em desenvolvimento, a base para a disseminação de dados, avaliação de resultados e planejamento estratégico tem sido fornecida por um rico conjunto de recursos, que inclui: levantamentos domiciliares, como as Pesquisas por Agrupamento de Indicadores Múltiplos; revisões de estatísticas, como a série de relatórios Progressos para as crianças, produzida pelo UNICEF; a série do The Lancet, que cobriu a sobrevivência e a saúde das crianças, dos recém-nascidos e das mães; e publicações que avaliam os progressos em direção aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que foram produzidas pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, pelo Banco Mundial e pela Organização Mundial da Saúde, entre outras instituições. Essas iniciativas estão complementando esforços nacionais realizados através dos países em desenvolvimento para produzir, analisar e disseminar dados e informações cruciais sobre a saúde relacionados a fatores de contribuição e resultados de ações voltadas à mãe, ao recém-nascido e à criança.

Com demandas crescentes por responsabilização, como resultado dos ODM e de novas iniciativas globais na área da saúde, torna-se indispensável a criação de uma base de evidências consistente. Embora as informações disponíveis sejam mais do que suficientes para orientar as ações, também é fato que ainda faltam pesquisas e avaliações mais rigorosas sobre o que funciona, sobre o compartilhamento sistemático de boas práticas, e sobre maior compartilhamento de novas informações.

Aumentar o nível dos recursos destinados às mães, aos recém-nascidos e às crianças.

É amplamente reconhecido que, além de mobilizar seus próprios recursos domésticos, os países mais pobres precisarão de ajuda substancial por parte das nações mais ricas para alcançar os ODM. Segundo estimativas do Projeto Milênio, o volume total da assistência oficial ao desenvolvimento (AOD) necessária para os ODM era de US$135 bilhões em 2006. No entanto, a AOD efetivamente liberada em 2006 totalizou US$104 bilhões7 (ver Figura 5.1).

A serem mantidas as tendências atuais, a AOD parece ajustada para aumentar para cerca de US$200 bilhões em 2015. Essas estimativas equivalem a cerca de 0,5% do produto nacional bruto (PNB) dos países doadores – 0,44% em 2006 e 0,54% em 2015, respectivamente. Quando são incluídos custos adicionais – para projetos importantes de infra-estrutura, ajustes para mudanças climáticas e reconstrução pós-conflito, por exemplo –, 0,7% do PNB dos países doadores passa a ser uma meta mais provável. A ironia é que esse montante está inteiramente disponível dentro dos compromissos já assumidos pelos países doadores. Há mais de 35 anos, as principais nações industrializadas prometeram alocar 0,7% de seu PNB para a AOD.8 Em 2002, a meta de 0,7% foi reiterada por todos os países no Consenso de Monterrey.

Estamos indo bem? Dos 22 países-membros do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento, da OCDE, 16 atingiram as metas de AOD que estabeleceram para 2006 em Monterrey. Mas os outros seis países precisam ser estimulados a cumprir suas promessas.9

Sem dúvida, as necessidades dos países que procuram alcançar os ODM são diferentes. Com base nas melhores evidências disponíveis, o UNICEF está desenvolvendo atualmente uma lista de opções de políticas para alcançar os ODM relacionados à saúde, específicas para cada país, para submeter à consideração dos governos e de seus parceiros na área de saúde materna e infantil. Além disso, está ajudando os países a identificar e superar falhas em apoio financeiro.

Na África ao sul do Saara, onde a situação das crianças é mais terrível, UNICEF, OMS e Banco Mundial colaboraram, em 2006, com uma análise de quanto custaria a redução da mortalidade infantil na região (ver Destaque, Capítulo 4). Por meio da ampliação das intervenções já existentes destacadas neste relatório, o número de mortes de menores de 5 anos poderia ser reduzida em 35% até 2009, a um custo adicional de US$2,50 per capita (ou cerca de US$800 por vida preservada). Para cumprir plenamente o ODM 4 – uma redução de dois terços ns mortes de menores de 5 anos até 2015 –, seria necessário fortalecer ainda mais os sistemas de saúde da África, além de introduzir novas intervenções, tais como vacinas contra rotavírus e infecções por pneumococos. A análise constatou que é perfeitamente possível salvar a vida de mais de cinco milhões de crianças e de cerca de 200 mil mães a cada ano. Quanto custaria salvar essas vidas? Mais US$10 per capita por ano – ou menos de US$2.000 por vida preservada.10

No Encontro Mundial de Cúpula realizado em 2005, em Gleneagles, na Escócia, as principais nações industrializadas comprometeram-se a dobrar sua ajuda para a África até 2010. Mesmo assim, até meados de 2007, pouco se avançou nessa direção.11 Os países africanos, por sua parte, têm sido lentos para demonstrar seu próprio comprometimento com relação às suas crianças. Na Declaração de Abuja, adotado no encontro especial de cúpula sobre aids, promovido em 2001 pela Organização da Unidade Africana, líderes africanos incluíram um compromisso de destinar para a saúde 15% de seus orçamentos nacionais. Seis anos depois, apenas alguns países conseguiram fazê-lo.12

Os recursos para alcançar os ODM relacionados à saúde estão disponíveis. O mundo está mais rico do que jamais esteve. Os fluxos financeiros para os países em desenvolvimento estão em níveis nunca antes alcançados, em termos de afluxos da dívida privada, investimentos externos diretos, capital em carteira e remessas financeiras. Mesmo assim, embora a assistência oficial ao desenvolvimento tenha dobrado desde 2000, seu aumento ficou um pouco atrás de outros fluxos financeiros (ver Figura 5.1). Os doadores ainda devem honrar sua promessa de aumentar a assistência para a África, e precisarão acelerar os esforços acentuadamente ao longo dos próximos anos.

Fazer da sobrevivência das mães, dos recém-nascidos e das crianças uma exigência global

© UNICEF/ HQ00-0001/Giacomo Pirozzi
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Parcerias e compromissos renovados por parte dos interessados são condições
necessárias para o atendimento das necessidades de saúde de mães, recém-nascidos e criança.
Uma agente de saúde conversa com uma mãe sobre imunização, Tanzânia.

Muitos já ouviram o apelo em favor da sobrevivência materna e infantil. Desde os primeiros anos da revolução pela sobrevivência da criança, parcerias globais pela saúde, freqüentemente financiadas por fontes privadas, proliferaram e revitalizaram o campo. Alguns exemplos são a Iniciativa de Fortificação da Farinha, a Aliança Global para Melhoria da Nutrição, a Aliança Gavi, a Parceria para Saúde Materna, do Recém-Nascido e da Criança, Roll Back Malaria e o Programa Especial para Pesquisa e Capacitação em Doenças Tropicais, entre muitas outras.

Como conseqüência dessas e de outras alianças, a atenção pública para questões relacionadas à saúde global vem-se mantendo permanentemente alta. Pesquisa e desenvolvimento patrocinados por essas parcerias começam a produzir resultados: 25 medicamentos, oito microbicidas e 50 vacinas estão em fase final de processo, e deverão combater doenças que afetam predominantemente os pobres. Muitas dessas parcerias mostraram-se extraordinariamente eficazes para oferecer às comunidades medicamentos gratuitos ou a baixo custo, com garantia de qualidade, além de vacinas. Outras estão aprimorando os mecanismos de formulação de políticas e apoiando reformas institucionais. Outras inda estão contribuindo para o estabelecimento de normas e padrões em protocolos de tratamento.13

No entanto, devido à objetividade das parcerias para conseguir resultados, houve quem argumentasse que parcerias globais são freqüentemente orientadas para a relação doador-commodity, em vez de serem centradas na relação país-população. Além disso, um foco freqüente em uma única doença significou, algumas vezes, uma confiança excessiva em intervenções verticais e ênfase insuficiente na integração de serviços e no fortalecimento de sistemas de saúde nacionais.14 A mensagem amplamente divulgada – e que mereceu atenção global – é que os países em desenvolvimento devem assumir a liderança, e “tomar posse” das soluções para seus problemas de saúde. Isso demandará maior harmonização e compatibilização com as prioridades, os sistemas e os procedimentos dos próprios países em desenvolvimento. Sem dúvida, foi essa a posição adotada na Declaração de Paris sobre Eficácia da Ajuda, em março de 2005, que está fornecendo a estrutura por meio da qual as parcerias entre doadores e países em desenvolvimento podem explorar plenamente seu potencial.

Nesse caso, em que ponto está o mundo hoje, passado pouco mais da metade do prazo para atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio? Comparativamente, 50% das regiões estão a caminho do cumprimento do ODM 4, reduzindo em dois terços as taxas de mortalidade infantil entre 1990 e 2015. Sem dúvida, este é um cenário sem precedentes, e reflete avanços na saúde materna e infantil ocorridos no século passado e o compromisso de doadores e governos nacionais para unir forças para garantir que as crianças sobrevivam e se desenvolvam.

Muitos países em desenvolvimento e diversas regiões deram passos largos na redução da mortalidade infantil, e alguns conseguiram reduzir as taxas de mortalidade a níveis que se aproximam daqueles alcançados por alguns países industrializados, embora registrem níveis de renda per capita muito mais baixos. Três regiões – América Latina e Caribe, Leste da Ásia e Pacífico, e Europa Central e Oriental e Estados Independentes (ECO/CEI) – reduziram substancialmente suas taxas de mortalidade desde 1960, apesar de terem enfrentado momentos de instabilidade econômica e política. Esse sucesso justifica a esperança de que as taxas de mortalidade de crianças continuem a cair globalmente, a um ritmo ainda mais rápido, desde que sejam encontrados os meios para ampliar o acesso a cuidados de qualidade para as mães, os recém-nascidos e as crianças no mundo em desenvolvimento.

O desafio é construir sobre a base de progressos alcançados através do mundo em desenvolvimento em intervenções preventivas implementadas por meio de serviços expandidos, especialmente nos anos mais recentes. A expansão do atendimento para a realização de intervenções com maior alcance – especialmente a ampliação de programas de imunização, a distribuição de mosquiteiros tratados com inseticida, a ampliação da distribuição da terapia de reidratação oral e da suplementação de vitamina A – aumentou a parcela associada a fatores de contribuição no balanço da saúde materna e infantil. As análises desses resultados, ao lado do aumento na freqüência da coleta de dados, prometem mostrar um impacto marcante sobre os resultados de sobrevivência materna e infantil ao longo dos próximos anos.

A despeito de incontáveis iniciativas, programas e políticas que proliferaram desde o primeiro ano do novo milênio, a oportunidade de reduzir o número de mortes de crianças menores de 5 anos nunca foi tão clara. Está claro o que é preciso fazer para melhorar as condições de sobrevivência infantil. Também está claro quando fazer, assim como quem deve assumir as tarefas. E acima de tudo, o que está mais claro é a necessidade de unir forças – no discurso e na prática – para garantir o direito das mães, dos recém-nascidos e das crianças a cuidados básicos de saúde de qualidade.

O desafio, portanto, é livrar-se do cinismo e da letargia e deixar para trás promessas quebradas no passado. A meio caminho entre o lançamento dos ODM, em 2000, e sua plena realização, em 2015, ainda há muito a fazer. A base para as ações – dados, pesquisa, avaliação – já está consolidada. É hora de reanimar os esforços em torno dos objetivos de sobrevivência e saúde das mães, dos recém-nascidos e das crianças, com energia renovada e visão mais apurada, e colocar esses objetivos no centro da agenda internacional, para fazer cumprir os princípios de justiça social e honrar a inviolabilidade da vida.

Os meios estão à mão. Trata-se agora de vontade e ação – pois nenhum empreendimento é mais nobre ou mais compensador do que salvar a vida de uma criança.


[Destaques e figuras deste capítulo]