Casamento precoce e fístula

Pelo menos dois milhões de mulheres jovens nos países em desenvolvimento sofrem com as dolorosas, humilhantes e devastadoras conseqüências da fístula obstétrica. Causada por complicações durante o parto – geralmente porque a pélvis de mulheres jovens é muito pequena, ou porque o bebê é muito grande ou não está corretamente posicionado –, a fístula obstétrica manifesta-se como um orifício entre a vagina da mulher e a bexiga, o reto ou ambos, criando vazamentos constantes de urina ou fezes. Meninas e jovens que sofrem de fístulas são condenadas ao ostracismo por suas comunidades, e muitas vezes são abandonadas por suas famílias, o que leva muitas delas a se tornar mendigas desesperadas.

Antigamente muito comuns na Europa e na América, as fístulas foram erradicadas no início do século 20, graças a cuidados médicos modernos. Entretanto, ainda são comuns nos países em desenvolvimento, onde o aumento da desnutrição e do retardo de crescimento aumenta a probabilidade de partos complicados, onde práticas culturais e pobreza levam a casamentos e gestações precoces, e onde os cuidados de saúde não estão amplamente disponíveis ou são extremamente limitados.

Meninas jovens são freqüentemente pressionadas a engravidar logo após o casamento, e podem enfrentar diversas barreiras no acesso a serviços anticoncepcionais. Apesar das leis contra o casamento infantil em muitos países, 82 milhões de meninas nos países em desenvolvimento estarão casadas antes de completar 18 anos. No mundo todo, cerca de 14 milhões de mulheres e meninas entre 15 e 19 anos de idade dão à luz a cada ano.

Gestações de adolescentes são arriscadas, e quanto mais jovem a menina, maiores são os riscos. Meninas menores de 15 anos têm probabilidade cinco vezes maior de morrer no parto do que as mulheres entre 20 e 29 anos de idade. Muitas dessas meninas que sobrevivem a dias de trabalho de parto complicado acabam tendo fístulas. Desse modo, adiar a primeira gestação de uma menina é uma estratégia fundamental para a redução da ocorrência de fístulas e de mortes maternas, e constitui uma importante questão de saúde pública.

A fístula pode ser evitada, e pode também ser tratada por meio de cirurgia, que custa menos de US$ 300. Em 2003, o Fundo de População das Nações Unidas lançou uma Campanha Global pela Eliminação da Fístula, em resposta às crescentes evidências do impacto devastador da fístula obstétrica na vida das mulheres. A campanha envolve diversos parceiros, e hoje atua em cerca de 30 países da África ao sul do Saara e da Ásia Meridional, e em alguns Estados Árabes. No longo prazo, a meta é tornar a fístula tão rara nos países em desenvolvimento quanto já é nos países industrializados.

A campanha trabalha para evitar a ocorrência da fístula, trata as mulheres afetadas, e as ajuda na sua reintegração em suas comunidades, assim que se recuperam. Em Níger, 600 agentes comunitários de saúde receberam treinamento básico sobre a prevenção da fístula. Na Nigéria, 545 mulheres realizaram a cirurgia, e dezenas de médicos e enfermeiras foram treinados em cuidados de fístula. No Chade, centenas de mulheres aprenderam novas habilidades e receberam pequenos subsídios pós-cirúrgicos, por meio de um projeto de geração de renda.

Cada país que adere à campanha passa por três etapas. Em primeiro lugar, são avaliadas as necessidades nacionais, para determinar a extensão do problema e os recursos necessários. Em seguida, é formulada uma resposta nacional, com base nas necessidades identificadas. Por fim, são implementados programas focalizando a prevenção, o tratamento e a reintegração de pacientes curadas a suas comunidades.

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