De acordo com o documento ‘Estudio de Niños Callejeros’ – um estudo oficial sobre crianças de rua –, 11.172 crianças vivem e trabalham nas ruas da Cidade do México, a maior cidade do mundo. Lavam carros e ônibus, levam recados e carregam refrigerantes. Meninos odeiam ser carregadores. Ou ficam com problemas de coluna, ou são atropelados por automóveis. No mesmo cenário, fumaça, trânsito pesado e pobreza extrema, além de violência, desintegração social e deterioração ambiental. Drogas e delinqüência são imagens corriqueiras.
Nas ruas, as crianças lavam pára-brisas e engolem fogo. Quase todos aqueles que passam por elas são indiferentes à magia em suas faces e em suas mãos. As crianças esperam os clientes com seus instrumentos em mãos, e, na escuridão, os botões de seus trajes charro brilham, seus chapéus de abas largas cintilam. São guitarras, violinos, trombetas de Jericó, vozes à procura de um ouvinte, malabaristas, palhaços, mágicos. O farol vermelho nunca pára para essas crianças, e o espetáculo continua até as três ou quatro horas da manhã, principalmente às sextas-feiras e aos sábados, quando os casais se sentem românticos e lhes dão alguns pesos a mais.
Todas as pessoas que passam vêem essas crianças, mas elas são invisíveis. Elas não existem. A polícia olha para elas sem vê-las. Tudo as isola, tudo as censura.
A escola pode trazer outras angústias para essas crianças, mesmo para as mais inocentes. Para elas, é difícil reter o que aprendem: perderam sua capacidade de concentração. Além disso, não querem saber de telhados e paredes: o que pode ser comparado às ruas? A rua é um vício.
Nas ruas, tudo é cru: realidade, comida, visão, solidariedade. Nada precisa ser elaborado. Tudo é atirado em seus rostos: apelidos agressivos, risadas cruéis, pilhagens, escárnio, ridículo, a cicatriz que nunca se cura, maus-tratos, a grosseria.
Somente a rua lhes pertence. Compensa a solidão, a rejeição, a falta de amor. A rua exerce uma sedução sobre essas crianças. Dá-lhes
o dinheiro que nunca conseguiram em casa. Dá-lhes ritmo, tempo e retribuição imediata. “Eu sou alguém, eu sou alguma coisa. Acabei de ganhar o meu jantar.”
O tempo é diferente para essas crianças. Não se importam em saber que dia é hoje. Os dias da semana colocam-nas em armadilhas. As horas são as horas de seus desastres. Conhecem apenas duas estações, o tempo da seca e o tempo da chuva. A estação das chuvas (de junho a setembro) é a estação ruim, pois o período da tarde paralisa todas as atividades de rua. Também fica impossível jogar bola, e essa é uma atividade que eles adoram.
Elena Poniatowska é escritora, jornalista e professora. Embora tenha nascido em Paris, mora no México desde criança. Escreveu diversos livros de sucesso e recebeu inúmeros prêmios e homenagens – inclusive o Guggenheim Fellowship, do Conselho Nacional de Cultura e Artes do México, e o prêmio nacional mexicano de jornalismo.