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Leia carta entregue pelos adolescentes de comunidades populares do Rio ao Secretário-Geral da ONU

Rio de Janeiro, 27 de maio de 2010.

Senhor Secretário-Geral,

É com muita honra que nós nos dirigimos a Vossa Excelência. Agradecemos pela possibilidade de diálogo que representa uma oportunidade de contribuir com nossas ideias, com nossa visão de mundo para o alcance dos Objetivos do Milênio e consequente construção de uma sociedade melhor. Não nos dirigimos a Vossa Excelência sozinhos. Estamos aqui na condição de representantes da juventude que vive nas comunidades populares do Rio de Janeiro. Para formular essa carta, nos reunimos com outros jovens de outras comunidades. Da reflexão coletiva emergem nossas propostas e também um breve relato da situação de vida dos adolescentes e jovens cariocas, que em muitos aspectos se repete em outras regiões do país.

O Brasil, nas últimas décadas, atravessa um período de transformação política, social e econômica. Alguns Objetivos do Milênio já foram por nós superados, dando a impressão de que nossos problemas estão resolvidos, mas não é bem assim. O cenário de desigualdade que sempre marcou a realidade brasileira persiste, devido a questões políticas e, sobretudo, culturais.

Vamos começar falando sobre a pobreza. O Brasil reduziu pela metade o número de pessoas vivendo em situação de extrema pobreza, principalmente graças a políticas de distribuição de renda como o Bolsa Família, mas esse avanço já é sustentável ou as pessoas permanecerão dependentes do benefício? O Rio de Janeiro vive a mesma situação. Somos a segunda cidade mais rica do país mas, no mesmo bairro, a gente pode encontrar mansões e barracos miseráveis, um do lado do outro. Falta emprego para o jovem, falta emprego para o negro, falta emprego para as mulheres que, muitas vezes, sustentam a família sozinha. Elas acabam deixando os filhos sozinhos que terminam não indo à escola. Sem formação terminam sem emprego também.

Na área ambiental também tem desafios. Recentemente houve uma tragédia no Rio por conta das chuvas, não só porque as casas estão em locais irregulares, mas por conta da qualidade dos materiais de construção. Além disso, apesar de quase 100% da população ter acesso a água, continua o problema da falta de saneamento básico. Temos também o problema do lixo que afeta não só nossas comunidades, mas também toda a cidade.

No campo da educação alcançamos a ótima marca de ter 97% das crianças e adolescentes abaixo de 14 anos cursando o ensino fundamental. Mas persiste o desafio da qualidade. O modelo atual de escola tem se mostrado ineficiente para atender as necessidades de crianças das classes populares que estudam, mas não aprendem. Prova disso são os altos índices de repetência. Some-se a isso, no caso específico do Rio de Janeiro, o problema da violência urbana. Ir à escola no Rio pode ser perigoso: é briga entre bandidos e polícia, é briga entre bandidos e bandidos, é briga dentro da escola... Mas a gente não perde a esperança não porque um país que deu conta de universalizar o ensino fundamental tem tudo para superar o desafio da qualidade para todos abaixo de 17 anos, como garantido na nossa Constituição.

Já na política de enfrentamento à epidemia de HIV/aids o Brasil é uma referência mundial. Todo brasileiro tem muito orgulho disso. Mas o preconceito persiste. Ele está na escola, na comunidade e é sentido na pele, sobretudo por aquela geração que nasceu contaminada pela transmissão vertical e que agora chega à juventude.

No Rio de Janeiro há relatos de jovens que tiveram de deixar as comunidades onde vivem. Depois que a notícia de que eram portadores do HIV se espalhou receberam ameaças de morte. Outra questão delicada diz respeito ao acesso aos medicamentos. É importante assegurarmos que não teremos mais nenhum desabastecimento, como o ocorrido recentemente, deixando várias pessoas sem tomar o remédio por alguns dias. Sabemos que isso pode ser fatal para quem depende deles para viver.

Por fim, perguntamos como vamos envolver todos no processo de desenvolvimento? Como superar as disparidades econômicas e sociais? Se respondermos a essas questões pautadas pelo oitavo Objetivo do Milênio, de certa maneira, respondemos todas as outras questões colocadas por todos os outros objetivos. Hoje, pra quem mora numa favela carioca são poucas as alternativas. Não importa o quanto às pessoas estudem, batalhem, a maioria acaba como pedreiro, empregada doméstica, porteiro de prédio... Nada contra essas profissões, ainda que sejam alvo de profunda discriminação. O problema não está nesse ou naquele trabalho. O problema é impossibilidade da escolha. Sem formação, sem rede de relacionamento, sem bagagem cultural o leque de opções fica mais estreito.

De toda forma aqui no Rio de Janeiro fazemos o nosso dever de casa. Nós jovens atuamos em nossas comunidades para construir uma cidade melhor, onde não seja tão profundo o abismo entre ricos e pobres. Trabalhando na Plataforma dos Centros Urbanos realizamos em 50 comunidades populares um diagnóstico participativo, identificando o que cada território tem de melhor e pior. Com base nesse diagnóstico, definimos metas coletivamente e elaboramos um plano de ação. Não apenas nós, jovens. Fomos acompanhados por adultos, pelas lideranças comunitárias, representantes dos serviços públicos, crianças... Outra coisa que buscamos o tempo todo é o diálogo com o poder público pra gente alcançar o que a gente deseja. Não é uma coisa fácil, mas se a gente tem uma proposta boa e insiste, acaba conseguindo. Quanto mais a gente busca esses espaços, mais se fortalece para conseguir novos espaços, sempre com o objetivo de influenciar com as nossas idéias aquelas pessoas que tomam as decisões.

Na área da saúde podemos citar o a experiência do “RAP da Saúde” (Rede de Adolescentes Promotores da Saúde), que integra jovens de 50 comunidades de todas as regiões do Rio de Janeiro. Com o apoio da prefeitura os jovens promovem saúde, o que é mais do que prevenir doenças. Espalhamos informação através de todas as maneiras possíveis: panfletos produzidos por nós, programas nas rádios comunitárias, palestras nas escolas, na Associação de Moradores. Os temas variam de prevenção a DST/AIDS, a alimentação saudável, passando pelo lixo no lugar certo e pela importância do exercício físico. Sobretudo trabalhamos para que a população entenda e use melhor os serviços de saúde.

Ações como essas que acabamos de descrever ajudam a combater o preconceito que divide o Rio de Janeiro em duas cidades: uma para os pobres e outra para os ricos. Jovens de diferentes classes sociais se hostilizam, olham-se com desconfiança, uns temendo a violência, outros a discriminação. Em todas as camadas sociais a participação social é o melhor antídoto para esse abismo invisível e que está mais ao alcance dos jovens. Quando a gente muda nossa postura, participa, dá idéias, a gente mostra que é capaz e a gente consegue enxergar e mostrar que no fundo todo mundo é igual. Todo mundo quer a mesma coisa: viver melhor, no Rio, que é uma cidade linda.

Atenciosamente,

Bruna Gentil dos Santos     
Carlos Antônio da Silva      
Christian Telacio de Oliveira
Elaine Cristina de Conceição      
Geandra Nobre                
Gisele Gomes Messias
Gustavo Henrique Soares Dantas      
Kelly de Oliveira         
Rafaela Morais
Renato Gardel          
Wallan Silva
Rafaela Queiroz                

 

 

 
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