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Bancos de leite materno: abertos para doações e utilização por mães "cangurus" e outras mães

© UNICEF/Kent Page

Os bancos de leite materno brasileiros apresentam as mais altas taxas de retorno do mundo, salvando a vida de bebês prematuros de alto risco.

"Agora meu bebê e eu estamos desfrutando os benefícios do banco de leite materno", diz Paula Nunes, de 34 anos, que recentemente deu à luz Alice Maria, nascida prematuramente no Hospital Cesar Cals, em Fortaleza. "Sinto-me tão afortunada que, assim que conseguir produzir leite excedente, certamente vou doá-lo para ajudar outras mães como eu."

Na unidade neonatal de tratamento intensivo do hospital, tudo é silêncio, exceto pelo vai e vem de enfermeiras e de mães que acabaram de dar à luz, todas usando aventais e chinelos de proteção, e pelo zumbido de pelo menos 30 incubadoras e bercinhos de plástico. Cada um deles abriga um bebê pequenino, um prematuro de alto risco que luta para sobreviver. Graças aos bancos de leite materno – um programa brasileiro inovador e eficaz, realizado em âmbito nacional, há uma boa chance de que sobrevivam, contribuindo para reduzir ainda mais as taxas de mortalidade de menores de 5 anos no Brasil. O leite materno é essencial para a saúde do recém-nascido, uma vez que, além de alimentá-lo, é uma proteção contra diarreia, infecções respiratórias, diabetes e alergias.

Enfermeiras estão sempre disponíveis na unidade de tratamento intensivo, para monitorar os recém-nascidos e ajudar as mães que não conseguem amamentar seus bebês prematuros, ensinando-lhes como alimentá-los com leite materno por meio de um pequeno tubo conta-gotas que, sustentado com a mão, goteja o leite na boca do bebê e diretamente em seu estômago. Alguns bebês são tão pequenos que seu corpo todo caberia na palma de mão.

Naturalmente, nem todos os bebês prematuros ou de baixo peso estão na unidade de tratamento intensivo. O hospital participa também da iniciativa Mãe Canguru, que oferece às mães cangurus um ambiente calmo e silencioso, com enfermeiras atentas e leitos para mães de bebês prematuros ou de baixo peso que necessitam de atenção especial, mas não de cuidado intensivo. É aí que Paula tem estado desde o nascimento de sua filha Alice Maria, que fica permanentemente agasalhada junto a seu peito, como um filhote de canguru na bolsa de sua mãe.

"Tenho leite suficiente para alimentar meu bebê durante o dia", diz Paula. "Mas, à noite, às vezes parece que não consigo produzir leite suficiente e é aí que ela se beneficia do leite de mulheres que o doaram ao banco de leite. É muito estressante ser mãe e não conseguir amamentar seu bebê! Saber que existe um banco de leite ajuda muito a reduzir o estresse. Às vezes penso que, se não houvesse o banco de leite, eu não conseguiria produzir leite nenhum, porque ficaria extremamente ansiosa.

O programa Mãe Canguru é uma abordagem inovadora para o cuidado de bebês prematuros e de baixo peso. Pesquisas demonstraram que o lugar mais seguro para o bebê ser cuidado é em contato íntimo com a mãe – de forma semelhante a uma mãe canguru amamentando seu bebê dentro de sua bolsa.

Os fundamentos principais do método são o calor, a lactação e a posição de canguru. Mas, acima de tudo, é a relação estreita e amorosa estabelecida entre a mãe e a criança que ajuda o bebê prematuro e de baixo peso a sobreviver. A troca constante de afeto e de estimulação física próxima entre mãe e bebê melhora o ritmo cardíaco e respiratório. A voz da mãe, seu batimento cardíaco, seu calor e sua respiração funcionam como estímulos neurológicos e cognitivos enriquecedores. No programa Mãe Canguru, é a mãe – e não os médicos ou as enfermeiras – que se sente responsável pelo cuidado do bebê, embora, evidentemente, os especialistas em saúde ofereçam o apoio e a supervisão necessários para esse cuidado.

"A maior parte do tempo", diz Paula, "eu consigo produzir o leite necessário. Mas não consigo amamentar o bebê diretamente. As enfermeiras me ensinaram a retirar meu leite e alimentar o bebê por meio do tubo". É muito bom que Alice esteja bem presa junto ao peito; as mãos de Paula estão ocupadas com os tubos de leite enquanto alimenta o bebê, que responde estendendo suas mãozinhas para cima o suficiente para que Paula se incline e lhe dê um beijinho.

Em outro bairro de Fortaleza, distante do hospital, Ligia, de 37 anos e mãe de quatro filhos, desliga o telefone depois de fazer uma ligação gratuita. Ela está solicitando uma retirada, e não uma entrega. "Sinto-me muito feliz por ter podido amamentar todos os meus filhos", explica Ligia. "Minha filha mais velha está com 12 anos e eu a amamentei até os 4 anos. Veja como ela está crescida e é esperta!"

O carro do Banco de Leite Materno que realiza a coleta e a entrega está a caminho da casa de Ligia, com o motorista, uma enfermeira e os equipamentos e recipientes especiais necessários para coletar com segurança o leite de Ligia. "Ouvi falar sobre doação de leite materno no Viva Vida, um programa de rádio da Pastoral da Criança", diz Ligia. O Viva Vida é produzido e apresentado pela radialista Inês Prata. A Pastoral da Criança é uma organização religiosa que envolve mais de 200 mil voluntários no trabalho conjunto de combate à mortalidade infantil e à desnutrição no Brasil. "Pensei: já que tenho tanto leite, por que guardá-lo enquanto outra mãe está precisando dele?", diz Ligia. "Foi então que comecei a doar, e continuo a fazê-lo até hoje".

Na casa de Ligia, a amamentação faz parte da rotina doméstica. Logo que a enfermeira do banco de leite chega, Ligia interrompe suas tarefas e senta-se na cozinha, preparando-se para mais uma doação de seu leite. Seu filho Levi, de 5 anos, senta-se a seu lado, e Laís, a filha de 15 meses, enrosca-se em seu colo. Quando Laís começa a sugar o seio direito, a enfermeira ajuda Ligia a iniciar o procedimento simples de coletar o leite de seu seio esquerdo. "Esta é uma das ações mais bonitas do mundo", diz Ligia, sorrindo. "Sinto-me tão bem por poder doar meu leite e saber que estou ajudando outras mulheres e seus bebês! É simplesmente maravilhoso!"

Doar leite materno é, na verdade, doar vida. Contribui para a redução de mortes na infância, principalmente entre bebês prematuros, e beneficia todos: a mãe que amamenta se beneficia pela remoção do leite excedente, que pode causar problemas caso se acumule; um bebê prematuro que recebe leite materno está mais protegido contra diarreia, infecções respiratórias e outras doenças; e reduz-se o estresse que pode afetar a mãe que não consegue amamentar.

© UNICEF/Kent Page

Segundo Paulo Bonilha, coordenador do Programa de Saúde da Criança do Ministério da Saúde, o Brasil tem a maior rede mundial de bancos de leite materno. "Temos mais de 210 bancos de leite materno distribuídos em todos os Estados", diz ele. "O Brasil criou também uma rede importante para além de nossas fronteiras, e agora a maioria dos países da América do Sul tem seus próprios bancos de leite, implantados por trabalhadores brasileiros da área de saúde. E, no ano passado, criamos o primeiro banco de leite humano na África – em Cabo Verde – e esperamos ajudar a criar mais bancos em outros países africanos, com tecnologia de baixo custo, que contribuam para salvar a vida de bebês prematuros.

Informações adicionais

Os esforços inovadores e bem-sucedidos implementados no Brasil para a redução da mortalidade de menores de 5 anos simbolizam os esforços implícitos ao compromisso “Uma promessa renovada”, assinado ao longo de apenas um ano por 176 países (inclusive o Brasil), para acelerar o ritmo das quedas na mortalidade na infância. A realização desse compromisso demanda esforços colaborativos envolvendo governos, sociedade civil, organizações religiosas, setor privado, comunidades, famílias...e doadoras de leite materno, como Ligia.

Entre a década de 1990 e 2012, o Brasil obteve uma redução de 75% na mortalidade infantil, e em 2012 atingiu um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – o ODM4: uma redução de dois terços na taxa de mortalidade de crianças menores de 5 anos entre 1990 e 2015.

Os inovadores bancos de leite materno do Brasil oferecem um complemento importante – particularmente no caso de bebê prematuros –para diversos outros programas nacionais inovadores que, em conjunto, vêm ajudando a reduzir as taxas de mortalidade de menores de 5 anos em todo o País.

Esses programas incluem o eficaz programa de agentes de saúde comunitários – iniciado no estado do Ceará em 1988 –  que desde a década de 1990 tem sido um dos fatores mais importantes na redução das taxas de mortalidade de menores de 5 anos em todo o País. Visitando famílias de casa em casa em suas comunidades, e ensinando sobre a importância do aleitamento materno, da higiene e da vacinação contra doenças infantis evitáveis, como o sarampo, os agentes comunitários de saúde complementam o trabalho das mães sociais, e têm um papel fundamental na redução da ocorrência de mortes de menores de 5 anos causadas por pneumonia, diarreia, desnutrição, sarampo e outras doenças evitáveis.

Com iniciativas progressistas de proteção social – como o programa de transferência monetária Bolsa Família e o programa Saúde da Família –, o Brasil alcançou o quarto Objetivo de Desenvolvimento do Milênio em 2012 – muito antes do prazo limite dos ODM, que é 2015.

Ainda há muito trabalho a ser feito, uma vez que as disparidades em todo o País significam que, em muitas comunidade pobres e em meio a grupos marginalizados – entre os quais afro-brasileiros e povos indígenas –, as taxas de mortalidade de menores de 5 anos são motivo de preocupação e precisam ser reduzidas.

Assim sendo, o Brasil continua a inovar e a progredir em relação às taxas de mortalidade de menores de 5anos com novas iniciativas, entre as quais:

  • Programa Mãe Social, que oferece cuidado e apoio a gestantes vulneráveis durante a gravidez e o primeiro mês de vida do bebê, que é o mais crítico.
  • Rede Cegonha, que melhora os serviços de saúde e os torna mais acessíveis para gestantes e bebês.
  • Programa Mãe Canguru para o cuidado de bebês prematuros e de baixo peso, baseado no contato próximo e constante do bebê com a mãe.
  • Superagentes de Saúde Infantil, introduzido recentemente em Fortaleza, de crianças educadoras de saúde, que ensinam cuidados básicos de saúde umas às outras e a crianças menores cuidados básicos de saúde nas escolas.
  • Selo UNICEF Município Aprovado, que tem como objetivo fortalecer políticas municipais que promovam os direitos de crianças e adolescentes. É atribuído a municípios que apresentam maior progresso em indicadores específicos de saúde, educação e assistência social.

Texto/Fotos: Kent Page – Fortaleza, 27 de agosto de 2013

 

 
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