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Reduzindo a mortalidade infantil, as cruzes azuis e o toque dos sinos das igrejas pelos "anjinhos" do Brasil

© UNICEF/Kent Page

"Ainda me lembro do momento, anos atrás, que realmente me chocou pela gravidade da situação", recorda Anamaria Cavalcante. "Eu trabalhava como pediatra na unidade neonatal do Hospital Estadual Infantil Albert Sabin, aqui em Fortaleza. Um dia, ouvi um grito e o barulho de louça se quebrando na unidade de emergência. Uma mãe tinha chegado à emergência com seus cinco filhos gravemente desnutridos. A enfermeira entrara com uma bandeja cheia de xícaras de leite para dar às crianças, mas quando viram o leite, elas saltaram e literalmente atacaram a enfermeira, tal a fome e a sede que sentiam. Todas as xícaras caíram e se quebraram, esparramando o leite pelo chão. Foi naquele momento que me dei conta de que realmente teríamos que fazer muito mais para ajudar a salvar a vida das crianças aqui no Ceará."

Considerado desde longa data como um dos Estados mais pobres do Brasil, o Ceará – situado no coração do semiárido brasileiro – é hoje mundialmente reconhecido como uma história de sucesso e como o Estado brasileiro líder nas notáveis realizações pela redução das taxas de mortalidade de crianças no primeiro ano de vida, com impacto positivo na redução das taxas de mortalidade de menores de 5 anos em todo o Brasil.

A situação era tão grave que, nas décadas de 1980 e 1990, as mães por vezes nem sequer cuidavam de dar nome aos bebês quando nasciam, porque o risco de morte neonatal era tão alto que, "por via das dúvidas", não queriam desperdiçar dinheiro com o registro oficial. Nas cidades e nos vilarejos do interior do Ceará, semiárido, seco e poeirento, os sinos das igrejas tocavam com frequência – a cada vez que mais uma criança morria –, um lembrete sombrio para que todas as pessoas da comunidade se dessem conta do alto custo representado pela morte de seus filhos.

"A essa época, o principal fator de morte de crianças no Ceará era a desidratação decorrente de diarreia", diz Anamaria, meneando a cabeça. "Em 1986, a diarreia foi responsável por 50% das mortes de bebês. Era uma vergonha, porque era uma doença muito fácil de tratar, e a baixo custo."

No Ceará, no final da década de 1980, aproximadamente um bebê em cada 10 morria antes do primeiro aniversário, e apareciam cada vez mais cruzes azuis nos cemitérios das cidades e dos vilarejos do Estado. Para o povo do Ceará, azul é a cor que simboliza a ascensão da criança ao céu. Em toda parte havia cruzes azuis nos cemitérios e, sempre que um bebê morria, o "anjinho" era enterrado em um pequeno caixão azul forrado com um tecido azul, e seu túmulo era assinalado por uma cruz azul muito simples.

Anamaria ajudou a conduzir os esforços do Ceará para reverter a situação de mortalidade infantil e de desnutrição de crianças – e com a ajuda do médico brasileiro Dr. Carlile Lavor, convenceu o governador do Ceará a colocar o combate à mortalidade infantil no centro de sua agenda, promovendo, dessa forma, o direito de todas as crianças à saúde.

"Anamaria foi fundamental para o desenvolvimento do programa Viva Criança em todo o Ceará", explica Tati Andrade, do UNICEF. "Nós duas nos inspiramos no relatório Situação Mundial da Infância 1985, do UNICEF, que focalizava a sobrevivência infantil. A maioria das estratégias do Viva Criança baseou-se nas recomendações do UNICEF", diz Tati, que é pediatra e foi a primeira coordenadora do Viva Criança, de 1987 a 1990. "As quatro áreas principais de nosso trabalho incluíam o estabelecimento e a capacitação de uma rede de agentes comunitários de saúde; o aumento da cobertura de vacinação contra as principais doenças responsáveis pela mortalidade infantil – como o sarampo –; a capacitação de pessoal da área da saúde, para oferecer melhor atendimento às crianças; e campanhas de comunicação de massa, para ajudar a informar e ensinar o público modos simples e eficazes de melhorar a saúde de seus filhos, entre os quais o aleitamento materno."

Outra estratégia fundamental foi atacar aquele que, à época, era o principal fator de morte de crianças: a desidratação decorrente de diarreia. "Até mesmo as famílias e mães mais pobres já tinham em casa tudo o que era necessário para salvar a vida de seus filhos", diz Anamaria. "Simplesmente não sabiam que uma solução de reidratação oral que poderiam fazer em casa, com baixo custo, utilizando apenas água, sal e açúcar, podia literalmente evitar que seus filhos morressem de desidratação decorrente de diarreia."

"No final da década de 1990, apenas quatro anos depois da criação do Viva Criança, tínhamos agentes comunitários de saúde visitando, de casa em casa, as vilas e cidades em todo o Estado do Ceará. Os agentes ensinavam as mães a preparar em casa a solução de reidratação oral, além de outras habilidades relativas à saúde. Ao final da década de 1990, havia diminuído em 54% o número mortes de crianças que podiam ser atribuídas à diarreia", explica Tati Andrade. "Constatamos também uma redução significativa nas taxas de desnutrição de crianças e um aumento dramático no número de crianças vacinadas contra doenças infantis."

Ao longo dos anos, todos se envolveram – governo, sociedade civil, organizações religiosas, setor privado, universidades, comunidades, famílias e pessoas dedicadas. No Ceará, os esforços do governo estadual e desse variado conjunto de pessoas foram tão eficazes que em 1993, pela primeira vez em sua história, o prêmio anual Maurice Pate, do UNICEF, foi atribuído não a uma pessoa ou a uma organização, mas a um Estado: o prêmio foi concedido ao Estado do Ceará, por suas realizações na redução da mortalidade infantil e da desnutrição de crianças.

Desde a década de 1990 e até 2012, o Brasil conseguiu uma redução de 75% na mortalidade infantil, e em 2012 o País atingiu um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – o objetivo ODM4: redução de dois terços na taxa de mortalidade de crianças menores de 5 anos entre 1990 e 2015. Mas embora saibam que o Estado do Ceará – e o Brasil, em nível nacional – fizeram progressos significativos nessas áreas, Anamaria e Tati não estão satisfeitas e continuam a trabalhar para salvar a vida de mais crianças brasileiras.

Anamaria Cavalcante, ex-secretária de Saúde do Estado do Ceará, é atualmente professora em uma das escolas de medicina de Fortaleza. Seu currículo inclui a iniciativa de atribuir a seus alunos a responsabilidade de praticar trabalho voluntário, ensinando crianças a ensinar práticas básicas de saúde e higiene a outras crianças, como superagentes de Saúde Infantil, na Escolinha Sol, escola comunitária em um dos bairros pobres de Fortaleza. Olhando para o pátio da escola, Anamaria diz: "Saúde, educação e proteção da infância estão todas interrelacionadas. E brincadeira. Para que as crianças aprendam e sejam saúdáveis e felizes, é preciso que possam brincar."

Tati Andrade é atualmente responsável pelos programas de Saúde Infantil, Desenvolvimento na Primeira Infância e HIV/aids no escritório do UNICEF em Fortaleza. "Sinto muito orgulho em trabalhar para o UNICEF", diz ela. "Não apenas continuamos a contribuir para a redução da mortalidade de menores de 5 anos no Brasil, mas estamos também compartilhando nossas experiências e as lições que aprendemos com outros países, de forma a ajudá-los a fazer o mesmo. Não se trata apenas de crianças brasileiras... em qualquer parte do mundo, crianças têm direito à saúde."

Tanto Anamaria quanto Tati estão decididas a trabalhar até bem depois da aposentadoria. "Até morrer", dizem, para que um dia, no Brasil, não seja necessária nenhuma cruz azul para nenhum "anjinho", e para que os sinos das igrejas do Ceará só toquem quando houver boas notícias para as famílias brasileiras.

© UNICEF/Kent Page

Informações adicionais
Os esforços inovadores e bem-sucedidos implementados no Brasil para a redução da mortalidade de menores de 5 anos simbolizam os esforços implícitos ao compromisso "Uma promessa renovada", assinado ao longo de apenas um ano por 176 países (inclusive o Brasil), para garantir a sobrevivência da criança e acelerar o ritmo das quedas da mortalidade na infância. A realização desse compromisso demanda esforços colaborativos envolvendo governos, sociedade civil, organizações religiosas, setor privado, comunidades, famílias... e doadoras de leite materno, como Ligia, uma mãe que vive em Fortaleza e que oferece seu leite para o banco de leite materno.

Os inovadores bancos de leite materno do Brasil oferecem um complemento importante – particularmente no caso de bebê prematuros – para diversos outros programas nacionais inovadores que, em conjunto, vêm ajudando a reduzir as taxas de mortalidade de menores de 5 anos em todo o País.

Esses programas incluem o eficaz programa de agentes de saúde comunitários – iniciado no Estado do Ceará em 1988 –, que desde a década de 1990 tem sido um dos fatores mais importantes na redução das taxas de mortalidade de menores de 5 anos em todo o Brasil. Visitando famílias de casa em casa em suas comunidades, e ensinando sobre a importância do aleitamento materno, da higiene e da vacinação contra doenças infantis evitáveis, como o sarampo, os agentes comunitários de saúde complementam o trabalho das mães sociais e têm um papel fundamental na redução da ocorrência de mortes de menores de 5 anos causadas por pneumonia, diarreia, desnutrição, sarampo e outras doenças evitáveis.

Com iniciativas progressistas de proteção social – como o programa de transferência monetária Bolsa Família e o programa Saúde da Família –, o Brasil alcançou o quarto Objetivo de Desenvolvimento do Milênio em 2012 – muito antes do prazo limite dos ODM, que é 2015.

Ainda há muito trabalho a ser feito, uma vez que as disparidades em todo o País significam que, em muitas comunidade pobres e em meio a grupos marginalizados – entre os quais afro-brasileiros e povos indígenas –, as taxas de mortalidade de menores de 5 anos são motivo de preocupação e precisam ser reduzidas.

Assim sendo, o Brasil continua a inovar e a progredir em relação às taxas de mortalidade de menores de 5 anos com novas iniciativas, entre as quais:

  • Programa Mãe Social, que oferece cuidado e apoio a gestantes vulneráveis durante a gravidez e o primeiro mês de vida do bebê, que é o mais crítico.
  • Programa Rede Cegonha, que melhora os serviços de saúde e os torna mais acessíveis para gestantes e bebês.
  • Programa Mãe Canguru para o cuidado de bebês prematuros e de baixo peso, baseado no contato próximo e constante do bebê com a mãe.
  • Programa Superagentes de Saúde Infantil, introduzido recentemente em Fortaleza, com crianças educadoras de saúde, que ensinam nas escolas cuidados básicos de saúde umas às outras e a crianças menores.
  • Selo UNICEF Município Aprovado, que tem como objetivo fortalecer políticas municipais que promovam os direitos de crianças e adolescentes. É atribuído a municípios que apresentam melhores progressos em indicadores específicos de saúde, educação e assistência social.

Texto/Fotos: Kent Page – Fortaleza, 29 de agosto de 2013

 

 
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