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Na linha de frente no Brasil para reduzir a mortalidade de menores de 5 anos por três gerações

© UNICEF/Kent Page

Aos 56 anos de idade e após 23 anos de visitas diárias a famílias que vivem em sua comunidade pobre nos arredores de Fortaleza (CE), Graça Campos tem estado na linha de frente da luta para reduzir a mortalidade infantil no Brasil. E apesar do impressionante progresso do Brasil nessa área até o momento, ela não dá sinais de reduzir o ritmo.

Graça grita "Bom dia!" pelo portão de ferro enferrujado, anunciando sua chegada como agente comunitária de saúde à casa não de uma nem duas, mas de seis famílias que vivem juntas, em quartos próximos uns dos outros, sem água encanada. Cães, gatos, coelhos e galinhas correm por espaços pequenos e apertados entre as sete crianças que vivem nesse local. Cinco delas têm menos de 5 anos de idade e, em apenas dois meses, outro bebê vai juntar-se à família.

"Nós a chamamos Tia Graça", diz Érica, que tem 17 anos de idade e está com sete meses de gestação. "Ela nos visita há bastante tempo e está me ajudando a compreender como ter uma gravidez saudável." Atuando no Brasil como agente comunitária de saúde, Graça vem ajudando essa família por três gerações. "Hoje, Érica está grávida e Lidiane tem duas crianças menores de 3 anos. Esta é a primeira gravidez de Érica e ela é muito jovem, portanto precisamos realmente cuidar dela. Lidiane tem apenas 21 anos de idade, e os primeiros anos de vida de seus bebês são os mais importantes." Desde o nascimento de Lidiane, Graça conhece sua mãe, Heloisa. Ajudou na criação de seus filhos, para que crescessem saudáveis desde o nascimento, e agora ajuda a terceira geração: os filhos de Lidiane – netos de Heloisa – e os filhos de seus irmãos e irmãs.

Graça senta-se primeiro com Érica, no lado de fora da casa, e responde à sua lista de perguntas, mas é como se fosse uma conversa amigável com um membro da família. "Quando as meninas adolescentes que vivem por aqui ficam grávidas, nunca contam primeiro aos seus pais, porque estão assustadas. Sempre contam primeiro para mim, porque sabem que podem confiar em mim e que eu as apoiarei. A partir de então, temos conversas muito francas sobre o que esperar e quais são suas preocupações. Nesse sentido, às vezes é mais fácil lidar com garotas adolescentes grávidas, porque elas me contam tudo."

Érica diz que, de maneira geral, sente-se muito bem, mas começa também a sentir-se cada vez mais cansada, e recentemente seus tornozelos começaram a inchar e a incomodá-la. Graça observa seus tornozelos e faz anotações em sua ficha. Desde que Érica engravidou, Graça certifica-se de que tenha plena consciência da importância do cuidado pré-natal durante a gestação, e vem monitorando cuidadosamente todas as visitas ao atendimento pré-natal.

"Eu gostaria que você fosse até a clínica de saúde amanhã, para passar pela enfermeira", sugere Graça. "Talvez não seja um problema, mas acho melhor a enfermeira e o médico darem uma olhada no inchaço. Nos últimos três meses de gravidez, você realmente precisa comer bem e descansar bastante, ok?" Érica concorda em ir, na manhã seguinte, à clínica de saúde, que fica a cerca de um quilômetro de distância.

A seguir, Graça volta sua atenção para Lidiane – suas mãos estão ocupadas com seu filho de 3 anos, Benício, e sua filha de 1 ano, Emily, que mama alegremente em seu peito. Graça revê a ficha de saúde com Lidiane, conversa sobre Benício e o observa: parece ser arteiro e estar em boa forma.

Graça volta sua atenção para Emily, verificando sua altura e seu peso em relação à ficha, que mostra a Lidiane. "Tudo parece bem até agora. Não há nenhum problema, mas não se esqueça de continuar o aleitamento materno para manter Emily saudável."

Mas Lidiane tem uma pergunta para Graça: "O que eu faço quando Emily tem diarreia?" "Ela está com diarreia agora?", pergunta Graça. "Sim, há dois dias", diz Lidiane. "A diarreia pode ser muito perigosa para uma criança pequena, uma vez que ela pode ficar desidratada rapidamente", explica Graça. "Portanto, você deve continuar a amamentá-la, mesmo quando ela está com diarreia... exatamente como está fazendo agora. Você também precisa manter limpas as mãos dela e as suas. Você lembra como se prepara a solução caseira de reidratação oral?"

Graça pega um banquinho de plástico e mostra novamente a Lidiane e a Érica como preparar a solução de reidratação oral. "Das informações que salvam vidas, esta é uma das mais importantes, e agentes de saúde como eu podemos compartilhá-la com as famílias pelas quais somos responsáveis", Graça comenta. "Quando comecei a trabalhar como agente comunitária de saúde, a diarreia matava muitas crianças. Mas começamos a ensinar às famílias como preparar suas próprias soluções caseiras de reidratação oral – utilizando apenas água, sal e açúcar –, o que ajudou a salvar a vida de crianças. É claro que as crianças ainda têm diarreia, mas, na minha comunidade, isso não é mais um problema que resulta em morte."

"Quando comecei, as principais causas de morte infantil eram pneumonia, diarreia, sarampo e desnutrição. Mas realizamos muitos progressos com relação a todas essas causas, inclusive por meio de vacinação e conscientização de todos sobre a importância do aleitamento materno", afirma Graça. "Minhas maiores preocupações atualmente são o número de jovens adolescentes que estão engravidando, a necessidade de que todas as gestantes compareçam com regularidade à clínica de saúde para consultas pré e pós-natal, e as condições de saúde de bebês prematuros. Muitas vezes, as adolescentes estão extremamente angustiadas, e o primeiro mês de vida é especialmente crítico para todos os bebês, principalmente os prematuros. Tenho muito orgulho do trabalho que realizo, e ainda tenho um papel importante a desempenhar em todas essas áreas. Mas, no momento, as grandes causas de mortes infantis do passado tornaram-se um problema menor."

© UNICEF/Kent Page

Desde a década de 1990, o programa Agente Comunitário de Saúde, altamente eficaz – implementado inicialmente no Ceará, em 1988 –, tem sido um dos fatores mais importantes na redução das taxas de mortalidade na infância em todo o País. Visitando famílias de casa em casa em suas comunidades, e ensinando sobre a importância do aleitamento materno, da higiene e da vacinação contra doenças infantis evitáveis, como o sarampo, agentes comunitários de saúde, como Graça, têm um papel fundamental na redução da ocorrência de mortes de menores de 5 anos causadas por pneumonia, diarreia, desnutrição, sarampo e outras doenças evitáveis.

Com iniciativas progressistas de proteção social – como o programa de transferência monetária Bolsa Família e o programa Saúde da Família –, o Brasil alcançou o quarto Objetivo de Desenvolvimento do Milênio em 2012 – muito antes do prazo limite dos ODM, que é 2015. Mas o Brasil continua a inovar, com o programa Rede Cegonha, que torna os cuidados de saúde mais acessíveis a gestantes que moram longe de clínicas de saúde; o programa Mãe Canguru*; e a introdução do programa de educadores de saúde denominados Superagentes de Saúde Infantil, no qual crianças ensinam cuidados básicos de saúde umas às outras, nas escolas.

Ainda há muito trabalho a ser feito, uma vez que as disparidades em todo o País significam que, em muitas comunidade pobres – como a comunidade de Graça – e em meio a grupos marginalizados, como afro-brasileiros e povos indígenas, as taxas de mortalidade de menores de 5 anos ainda são motivo de preocupação e precisam ser reduzidas. E Graça está lidando com uma nova preocupação. "Drogas. Todas as drogas, as gangues e a violência são problemas que hoje me preocupam realmente nesta região e em Fortaleza", alerta Graça. "A chance de uma criança não morrer de doenças antes dos 5 anos de idade nunca foi tão alta, mas hoje preciso conversar com elas e com suas famílias sobre os perigos das drogas, das gangues e do crack – tão barato e tão disponível por aqui que até mesmo crianças conseguem comprá-lo. Os traficantes são violentos e muitos jovens acabam sendo mortos."

Os esforços inovadores e bem-sucedidos implementados no Brasil para a redução da mortalidade na infância simbolizam os esforços implícitos ao compromisso "Uma promessa renovada", assinado ao longo de apenas um ano por 176 países (inclusive o Brasil), para garantir a sobrevivência infantil e acelerar o ritmo das quedas na mortalidade na infância. A realização desse compromisso demanda esforços colaborativos envolvendo governos, sociedade civil, organizações religiosas, setor privado, comunidades, famílias... e agentes comunitários de saúde, como Graça.

*O programa Mãe Canguru constitui um método inovador para o tratamento e o atendimento ambulatorial de bebês prematuros e com baixo peso ao nascer. Foi constatado que o lugar mais seguro para o bebê receber cuidados é em contato íntimo com sua mãe – de modo semelhante ao usado pela mãe canguru ao cuidar de seus filhotes em uma bolsa. Calor, lactação e a posição de canguru são os fundamentos essenciais do método. Porém, mais do que tudo, é o relacionamento amoroso e próximo estabelecido entre mãe e filho que permite a sobrevivência do bebê prematuro ou com baixo peso ao nascer. O estímulo importante e permanente, afetuoso e físico, melhora e garante os ritmos respiratório e cardíaco. Sob as perspectivas neurológica e cognitiva, a voz da mãe e a família ao redor atuam como estímulos enriquecedores. Por meio desse programa, são as mães, e não os médicos ou os enfermeiros, que estão no comando e são responsáveis por cuidar de seus bebês. Enquanto a mãe está no hospital, a equipe de saúde supervisiona seus cuidados com o bebê.

Texto/Fotos: Kent Page, Fortaleza, Ceará, Brasil, 23 de agosto de 2013.

 

 
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