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Mães sociais ajudam a "limpar a área" para reduzir a mortalidade de menores de 5 anos no Brasil

© UNICEF/Kent Page

Usar uma vassoura como arma talvez não pareça ser a melhor maneira de reduzir as taxas de mortalidade na infância. No entanto, um programa novo e criativo implementado em Sobral (CE) – o Mãe Social – vem provando a eficácia dessa abordagem simples.

Tanto é assim que Alexandre Padilha, ministro da Saúde do Brasil, foi a Sobral para observar o programa em ação, uma visita que também está na agenda da presidente Dilma Rousseff. Ambos vêm estudando formas para expandir ainda mais a iniciativa Mãe Social por todo o País, à medida que o Brasil avança em seu notável progresso na redução das taxas de mortalidade de menores de 5 anos.

Franciane de Lima tem 34 anos de idade e é um exemplo perfeito de mãe social. "Tenho muito orgulho de ter sido selecionada e capacitada para trabalhar como mãe social em minha comunidade", diz Franciane. "Tenho dois filhos meus, mas, desde que comecei, tornei-me também a mãe social de mais de 30 bebês. Às vezes, quando estou me preparando para ir trabalhar e meus filhos estão se preparando para ir à escola, eles dizem: ‘Mamãe, não se esqueça de seus próprios filhos em casa!’, fingindo ter ciúmes", ela diz, rindo. "Também me tornei amiga íntima de muitas mães e de outras crianças das famílias às quais dei apoio. Às vezes continuo com essa amizade e as ajudo voluntariamente por muito tempo depois que meus deveres oficiais terminaram."

Por volta do meio-dia já está muito quente – 42ºC – em Sobral, o quinto maior município do Estado do Ceará que, por natureza, é essencialmente agrícola. Localizado longe da costa do Oceano Atlântico, Sobral fica no interior seco e poeirento do Ceará, no coração do Semiárido brasileiro. Mas o calor não incomoda Franciane quando bate à porta da pequena casa de concreto, pintada de verde, em um bairro de baixa renda onde moram Maria e sua família, incluindo Ana Vitória, seu novo bebê.

Assim que a mãe abre a porta, o bebê faz um murmurinho e sorri quando vê Franciane. Seu reconhecimento e apego ficam evidentes quando estende seus braços em direção a ela. Maria está visivelmente cansada e parece bastante aliviada por poder colocar Ana Vitória nos braços de Franciane, e senta-se rapidamente em uma cadeira de plástico para descansar.

"Meu trabalho é muito importante, porque permite que as gestantes descansem e se mantenham saudáveis durante toda a gravidez, e durante o primeiro mês de vida de seu bebê, que é o mais crítico", explica Franciane, enquanto embala Ana Vitória em seus braços. "Meu trabalho é ajudar as mães de todas as formas que posso. Fui capacitada para ensinar gestantes sobre a importância do aleitamento materno e ajudá-las para que não tenham que enfrentar sozinhas os problemas com a amamentação."

No entanto, o trabalho de Franciane vai além, e é aí que entra a vassoura. "Franciane me ajuda de muitas formas", diz Maria. "Com Ana Vitória, tenho agora cinco filhos, e a gestação dela foi muito difícil. Mães sociais como Franciane aliviam bastante nosso trabalho, de modo que podemos descansar, dormir e manter a melhor condição de saúde possível."

"Ajudo as gestantes com todo o trabalho de casa", diz Franciane. "Peço que se deitem e durmam enquanto eu varro o chão, limpo a casa, lavo e seco roupas, preparo seus alimentos e dou banho em seu bebê. Fui capacitada para preparar alimentos saudáveis para gestantes, portanto, insisto em que comprem muitas verduras e frutas para que se mantenham fortes e saudáveis."

As mães sociais não estão disponíveis para todas as famílias de Sobral em que há uma gestante: o programa é direcionado apenas a famílias vulneráveis, de baixa renda. No entanto, a qualidade da assistência e dos cuidados que o programa oferece criou uma demanda adicional e inesperada: "Algumas mulheres de famílias abastadas conhecem o nosso trabalho", diz Franciane. "Perguntaram se uma mãe social poderia ajudá-las quando estivessem grávidas, mas trabalhamos apenas para as mulheres que mais precisam de nós."

"Acho que a parte mais importante do meu trabalho não é simplesmente dar condições para que mulheres grávidas descansem enquanto realizamos suas tarefas domésticas, ou compartilhar o que aprendi sobre aleitamento materno", diz Franciane. "Acho que a coisa mais importante é a amizade, são os cuidados e o apoio emocional que damos para uma gestante. Uma vez, estava cuidando de uma mãe que se sentia extremamente angustiada por estar grávida. Ela até dava socos em seu estômago antes do parto e dizia que nunca seria capaz de amamentar seu bebê. Fiquei com ela e consegui diminuir seu estresse por meio de apoio e estímulo. Hoje sinto-me muito feliz porque sei que realmente funcionou! Fiquei ao seu lado durante o primeiro mês de vida da criança – é o período mais importante para a sobrevivência de um bebê – e ajudei-a a amamentar e a cuidar da menina, que hoje está gordinha e saudável! Após o primeiro mês de vida, terminam meus deveres oficiais para com a família, mas visito-as com frequência e agora, quando chego à sua casa, a mãe diz: ‘Olha, sua segunda mãe veio visitar você.’ Isso me deixa muito feliz!"

"As drogas são um grande problema nesta comunidade, e muitos de nossos casos de alto risco envolvem gestantes viciadas em crack", diz Franciane. "Eu não tive a experiência de lidar com uma gestante viciada em crack, mas estou pronta para fazê-lo. Todo mundo precisa de amor, apoio e compreensão. Neste momento, nosso programa dá apoio a 25 gestantes viciadas em crack, mas é claro que elas também precisam de ajuda além do apoio que mães sociais podem dar."

© UNICEF/Kent Page

O uniforme de Franciane é uma camiseta branca e limpa, com a inscrição "Mãe Social" em letras brilhantes e vermelhas, o nome e o logo da agência governamental que apoia o programa Trevo de Quatro Folhas. Ela veste uma saia-calça azul: "Tem o formato de uma saia, porque é tradicional, mas por baixo é como um short, porque é mais prático para as tarefas domésticas que realizamos", explica Franciane. "Recebemos nosso uniforme quando concluímos nosso curso de capacitação como mãe social, de uma semana de duração; e todos os anos realizamos um treinamento adicional de dois dias sobre aleitamento materno, nutrição e higiene. Portanto, estamos sempre aprendendo."

Gestantes de famílias vulneráveis de Sobral beneficiam-se não apenas da ajuda de mães sociais, mas também do programa brasileiro de agentes comunitários de saúde, de alcance nacional. Agentes de saúde também visitam famílias vulneráveis, levando conhecimentos mais profundos sobre saúde, e trabalham com essas famílias por períodos que vão além do primeiro mês de vida de um bebê. Assim como muitas mães sociais, agentes comunitários de saúde frequentemente provêm de famílias vulneráveis, de baixa renda, e realmente compreendem os problemas que enfrentam, assim como as oportunidades que aparecem. "Muitos agentes comunitários podem receber apoio de mães sociais quando a mulher está grávida: conhecendo o bom trabalho que fazemos, frequentemente também solicitam o apoio da mãe social." E uma vez que agentes comunitários de saúde e mães sociais são remunerados por seu trabalho, o programa lhes fornece também experiência profissional e habilidades essenciais, além de apoio financeiro para suas famílias.

Em Sobral, no Brasil, mães sociais como Franciane estão ajudando a "limpar a área" para reduzir a mortalidade de menores de 5 anos – principalmente porque acompanham o bebê e sua mãe durante a gestação e no primeiro mês de vida de um bebê, que é o mais crítico.

Informações adicionais
Relativamente novo, o programa Mãe Social teve início em Sobral, no Estado do Ceará, Brasil, em 2006. Representa um complemento importante para diversos outros programas nacionais inovadores que, em conjunto, vêm ajudando a reduzir as taxas de mortalidade de menores de 5 anos em todo o País.

Um deles é o programa Agente Comunitário de Saúde, altamente eficaz – implementado inicialmente no Estado do Ceará, em 1988 –, que desde a década de 1990 tem sido um dos fatores mais importantes na redução das taxas de mortalidade de menores de 5 anos em todo o País. Visitando famílias de casa em casa em suas comunidades, e ensinando sobre a importância do aleitamento materno, da higiene e da vacinação contra doenças infantis evitáveis, como o sarampo, os agentes comunitários de saúde complementam o trabalho das mães sociais e têm um papel fundamental na redução da ocorrência de mortes mortes de menores de 5 anos causadas por pneumonia, diarreia, desnutrição, sarampo e outras doenças evitáveis.

Com iniciativas progressistas de proteção social – como o programa de transferência monetária Bolsa Família e o programa Saúde da Família –, o Brasil alcançou o quarto Objetivo de Desenvolvimento do Milênio em 2012 – muito antes do prazo limite dos ODM, que é 2015. Ainda há muito trabalho a ser feito, uma vez que as disparidades em todo o País significam que, em muitas comunidade pobres – como a comunidade de Franciane – e em meio a grupos marginalizados, como afro-brasileiros e povos indígenas, as taxas de mortalidade de menores de 5 anos são motivo de preocupação e precisam ser reduzidas.

Mas o Brasil continua a inovar e a realizar progressos com o programa Mãe Social e com outros programas – por exemplo, o programa Rede Cegonha, que torna os cuidados de saúde acessíveis a gestantes que moram longe de clínicas de saúde; o programa Mãe Canguru, para tratamento e atendimento ambulatorial de bebês prematuros e de baixo peso ao nascer, com foco no contato constante desses bebês com suas mães; e a introdução de educadores de saúde, denominados Superagentes de Saúde Infantil, no qual as crianças ensinam cuidados básicos de saúde umas às outras, nas escolas.

Os esforços inovadores e bem-sucedidos implementados no Brasil para a redução da mortalidade de menores de 5 anos simbolizam os esforços implícitos ao compromisso "Uma promessa renovada", assinado ao longo de apenas um ano por 176 países (inclusive o Brasil), para garantir a sobrevivência da criança e acelerar o ritmo das quedas na mortalidade na infância. A realização desse compromisso demanda esforços colaborativos envolvendo governos, sociedade civil, organizações religiosas, setor privado, comunidades, famílias... e mães sociais, como Franciane

É importante observar também que Sobral não só é pioneiro do programa Mãe Social como também foi agraciado com o Selo UNICEF Município Aprovado – não uma, mas seis vezes. Essa premiação é uma iniciativa do UNICEF em parceria com a Petrobras e a Rede Energia para fortalecer políticas municipais que promovem os direitos da criança e do adolescente. É concedido aos municípios que realizam progressos em relação a indicadores específicos de saúde, educação e assistência social. A iniciativa Selo UNICEF Município Aprovado foi lançada no Estado do Ceará, em 1999. Saiba mais sobre o Selo UNICEF.

Texto/Fotos: Kent Page – Sobral, Estado do Ceará, Brasil, 26 de agosto de 2013

 

 
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