Nossas prioridades

Infância e adolescência no Brasil

Sobreviver e se desenvolver

Aprender

Proteger(-se) do HIV/aids

Crescer sem violência

Ser prioridade absoluta nas políticas públicas

Adolescentes

Raça e etnia

Esportes e lazer

Cooperação Sul-Sul Horizontal

Lista das instituições apoiadas pelo UNICEF

 

Preconceito e resistência na história de uma líder quilombola

© UNICEF

Quando Ana tinha 5 anos de idade, seus pais decidiram dar a única menina entre sete irmãos para que seus padrinhos a criassem. Ela mudou de casa e de município. Saiu de Horizonte e foi morar em Pacajus, municípios vizinhos no Ceará. Sentindo-se vítima de preconceito por ser negra, um dia ela brigou com o filho da madrinha e levou uma surra que jamais esqueceu. O menino dizia que ela era negra e, por isso, não valia nada. Era o dia do seu aniversário de 10 anos. Passou três dias desaparecida, escondida na casa de uma lavadeira.

Em seguida, voltou para a casa dos pais. Eles devolveram-na para a madrinha. Ana fugiu de novo. Dessa vez, para mais distante: Fortaleza, a capital cearense. Lá, foi trabalhar como babá de uma menina recém-nascida. Seus pais não sabiam de seu paradeiro. E assim continuaram por três anos, quando ela decidiu retornar. A reação do pai e da mãe foi um misto de alegria e culpa por não ter entendido o desejo da menina de morar com eles.

De volta para sua casa – uma das 155 famílias quilombolas da Comunidade Alto Alegre, onde residem ao todo 240 famílias –, ela entrou no ritmo das meninas, que passavam parte do dia raspando mandioca na casa de farinha. Logo começou a namorar Osvaldo, que ela chama carinhosamente de Valdo, e que faz questão de dizer que é quilombola “original”. Eles foram morar juntos quando ela tinha 14 anos. E, aos 15, deu à luz sua primeira filha, Saiane. Depois vieram Saiara, Sângela, Samuel. Hoje Ana tem 31 anos e seus filhos, 16, 14, 9 e 5.

Registrada como Teresa de Jesus da Silva, para atender à vontade do pai, e conhecida desde criança por Ana, desejo não oficializado da mãe, é pelo segundo nome que ela é procurada pelas famílias da comunidade para os mais diversos assuntos. Diz que começou a se envolver com a comunidade porque queria ajudar as jovens mães que sequer sabiam dar banho nos filhos recém-nascidos e, para isso, começou a ir para a maternidade, junto com outras mulheres, para se solidarizar.

Estimulada pelo trabalho com as jovens mães, decidiu fazer uma capacitação oferecida pela Pastoral da Criança. As ações com as mães foram gerando outras ações e, assim, o trabalho da comunidade ficou sendo conhecido no município. Em 2005, a primeira-dama do município, Vânia Dutra, levou o então Secretário Especial dos Direitos Humanos, Mário Mamede, para uma visita. Em seguida, uma delegação do Senegal também agendou visita e sugeriu que fosse criada uma associação.
 
Em maio do mesmo ano – e, para ficar registrado na história, nenhum dia poderia ser mais marcante que o 13 de maio – foi criada a Associação dos Remanescentes de Quilombos de Alto Alegre e Adjacências (Arqua). Em seguida, receberam indicação para capacitação visando ao fortalecimento das comunidades quilombolas, pela ONG Sumaúma, em Recife. “Antes dessa capacitação, sequer sabíamos os nossos direitos. Vimos que era preciso conhecer nossos direitos se quiséssemos começar a mudar a nossa realidade”.

De lá para cá, a associação está na sua segunda diretoria. Até o início de julho de 2008, Ana era a presidente. No entanto, preferiu renunciar para se dedicar exclusivamente ao projeto “Raízes do Quilombo: Criança, a prioridade na comunidade”, apoiado pelo UNICEF e pela Kimberly Clark. O projeto tem o objetivo de fazer com que mães e crianças menores de 6 anos das comunidades de Alto Alegre e de Base, ambas no Distrito de Queimadas, em Horizonte, possam ter melhores condições de saúde e de vida.

Ana diz ser interessante que mais pessoas tenham a experiência da liderança comunitária. Atualmente a associação vem trabalhando em torno da conscientização de sua verdadeira identidade e, ainda, junto com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para a demarcação de terras. Ana destaca que o relatório final dos antropólogos foi concluído, mas falta o parecer do Incra. A maioria dos membros da comunidade, a exemplo do marido de Ana, é de “meeiros”. Trabalham na terra de outras pessoas e recebem parte do que produzem. Os mais jovens, para fugir dessa realidade, estão optando por trabalhar na indústria.

A comunidade tem recebido apoio ainda da Fundação Palmares, por meio do envio de sete toneladas de alimentos. Em parceria com a Prefeitura de Horizonte, que apóia o funcionamento da Associação, tem realizado cursos de auto-estima, empreendedorismo e de relações públicas. “Temos muito ainda a melhorar, mas já demos um salto, principalmente em relação à desinformação e à falta de visão. Agora é diferente”.

Raízes do Quilombo: Criança, a prioridade na comunidade
Constituída como uma sociedade civil sem fins lucrativos, a Associação tem como uma de suas principais finalidades o resgate da dignidade do negro por meio de ações de promoção da igualdade racial, compreendendo principalmente a melhora da auto-estima, do IDH (índice do desenvolvimento humano) e emprego, visando ao reconhecimento do negro com todos os direitos de pessoa humana.

No projeto apoiado pelo UNICEF e pela Kimberly Clark, Raízes do Quilombo: Criança, a prioridade na comunidade, as estratégias para melhorar a qualidade de vida de crianças de até 6 anos e suas mães vão de capacitações a oficinas. Serão capacitados profissionais de saúde para humanização do parto e do nascimento e equipes de saúde da família, professores de educação infantil, líderes da Pastoral da Criança e lideranças comunitárias em competências familiares e municipais; e de profissionais de saúde, professores e adolescentes nos temas relativos a sexualidade e saúde reprodutiva – Saúde e Prevenção nas Escolas.

As oficinas serão realizadas com famílias da comunidade utilizando o kit Família Brasileira Fortalecida; com gestantes, companheiros e famílias sobre o pré-natal de qualidade; sobre confecção e comercialização do artesanato; e com adolescentes em saúde sexual e reprodutiva.

A comunidade foi escolhida pelo UNICEF para ser apoiada porque, além de ter uma população remanescente de quilombos – o que é uma prioridade no projeto –, apresenta problemas sociais que podem ser alterados a partir da troca de informações com profissionais de saúde e de educação.

 

 
unite for children