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Tecer o futuro: informação contra o preconceito

© UNICEF/BRZ/Roberto Jayme
Bonecos ajudam adolescentes na prevenção ao HIV/aids

Como grande parte das crianças, aos 9 anos, Juliana* passava os dias brincando e estudando. Mas, ao contrário da maioria de seus colegas, também fazia parte de sua rotina várias visitas ao médico, exames e a ingestão de remédios diversas vezes ao dia. A avó explicava que isso era necessário porque um bichinho vivia dentro da menina.

Naquela época, Juliana começou a ver, com bastante freqüência, matérias na televisão sobre os medicamentos anti-retrovirais. Achou as caixinhas dos remédios bastante parecidas com as suas. Ficou desconfiada, mas deixou o assunto para lá. Um dia, estava na sala de espera para mais uma consulta médica. Saiu de perto da avó e, quando voltou, sem ser vista, ouviu-a conversando com uma amiga, explicando o que as duas estavam fazendo ali. Ao perceber que Juliana ouvia a conversa, a avó ainda tentou disfarçar, mas a desconfiança de Juliana virou certeza: o “bichinho” era o HIV.

Com a descoberta, a avó achou melhor pedir à médica para conversar abertamente com a menina. “A doutora sugeriu que eu não contasse para ninguém. Conforme fui crescendo, fui entendendo o que aquilo significava e fiquei apavorada. Uma das minhas primeiras reações foi me isolar”, lembra.

As vésperas de completar 16 anos, Juliana conheceu o Tecer o Futuro, projeto na cidade de São Paulo, apoiado pelo UNICEF desde seu nascimento. Ali, encontrou a oportunidade de compartilhar com educadores e outros adolescentes, suas angústias, seus conhecimentos e sonhos, experiência enriquecedora também para os colegas com quem convive no Tecer, quer vivam ou não com HIV.

No grupo, Juliana e seus amigos passaram a aprender mais sobre sua própria saúde e como viver melhor, e encontraram espaço para lutar contra um dos maiores desafios: o preconceito da sociedade contra quem vive com o vírus.

É contra o preconceito que Juliana utiliza todo o seu conhecimento. Divide seu tempo entre os encontros com adolescentes e jovens, em escolas ou ONGs, pesquisas no Centro de Educação e Documentação sobre Adolescer Vivendo com HIV (Cedoc) e uma peça de teatro de bonecos sobre o HIV e a aids, o Fala Sério!, todos parte do projeto Tecer o Futuro. No início das conversas não revela seu status sorológico. Abre os olhos e ouvidos para conhecer as experiências dos jovens sobre temas diversos. Orienta para a importância da prevenção, distribui materiais e deixa a conversa correr solta. “Nunca dou conselhos, só levo um papo com eles’”, explica Juliana.

No meio do papo, muitas vezes a menina precisa ser forte. “Já ouvi jovem dizendo, por exemplo, que, em um restaurante, a pessoa que vive com HIV deveria avisar para o garçom que tem o vírus ou levar um copo descartável de casa. Outro disse que mataria a namorada se soubesse que ela vive com HIV”, conta. “A gente acaba se machucando muito por causa da falta de informação, e é ela que leva ao preconceito”, acredita Juliana.

Ao final da série de encontros, a menina conta aos colegas sobre seu status sorológico. “A reação é das mais diversas. Alguns sentem vergonha por ter exposto seu preconceito. Mas a maioria fica espantada, não acredita que uma pessoa que vive com HIV possa estar ali com eles, não esteja morrendo, não esteja no hospital, mas trabalhe, estude e se diverta como eles”, relata. 

O preconceito também atrapalhou um namoro. A mãe do namorado contou para ele que Juliana vive com HIV e, segundo a menina, transformou a vida deles em um inferno. “Minha sogra dizia que nenhum homem ia me querer, que, se ele não me largasse, ela jogaria as roupas dele fora e ele que fosse viver comigo.” A jovem conta que, mesmo não tendo terminado o namoro naquela época, entrou em depressão.

Situações como essa fizeram com que Juliana desanimasse e abandonasse temporariamente o tratamento algumas vezes. “Com tudo o que aprendi e o que vivi no Tecer o Futuro, hoje estou mais bem resolvida e não deixo de tomar os medicamentos”, afirma. São cinco remédios todos os dias, mas nos últimos meses Juliana teve de incluir mais dois, pois acaba de enfrentar uma tuberculose. 

Hoje com 20 anos, Juliana compartilha sua experiência não só no Brasil, mas também no exterior. Em 2005, a convite do UNICEF, a jovem participou de um encontro com meninos e meninas de diversos paises na Ucrânia. Nem a barreira do idioma impediu que Juliana ensinasse e aprendesse com os colegas. Em 2007, a jovem também fez parte da II Mostra Saúde e Prevenção nas Escolas, em Brasília.

Fala Serio! – Durante a II Mostra, além de participar dos debates, Juliana e seus colegas do Tecer o Futuro contaram sobre o trabalho que fazem em escolas, ONGs e outros espaços em São Paulo, utilizando o teatro para provocar a reflexão e levar esclarecimentos para crianças, adolescentes e jovens.

Na peça, a boneca Carol conta ao amigo Guto que vive com HIV e está em dúvida sobre se deve ou não revelar sua condição ao namorado. Durante o papo, ensinam a platéia a colocar o preservativo feminino e masculino, conversam sobre preconceito, direito à informação e ao tratamento, enfrentamento ao estigma e à discriminação, inclusão, entre outros temas que surgem da platéia.

Falando sério de maneira leve e aberta, Juliana e seus colegas vão levando conhecimento, sem desanimar. Só para chegar à sede do projeto, Juliana leva no mínimo uma hora e meia. Mas acha que vale a pena. “Eu não sabia da metade das coisas de que sou capaz. Hoje, sei que posso fazer muito por mim e pelos outros”, conclui.

Trabalhando em rede – A Rede Tecer o Futuro reúne profissionais, estudantes, pessoas vivendo ou não com HIV. Além das atividades do Cedoc e do Fala Sério!, essas pessoas reúnem-se a cada dois meses para debater e compartilhar experiências sobre temas que envolvam o HIV e a aids.
 
* O nome é fictício para preservar a identidade da jovem.

 

 

 

 

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